[arquivo] O Presidente da Rússia, Vladimir Putin - (Photo by Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP)

O Presidente russo, Vladimir Putin, declarou hoje (15) que Moscovo está pronta para conversações com Estados Unidos e NATO sobre limites para colocação de mísseis e transparência militar, num novo sinal de desanuviamento da tensão com o Ocidente.

A declaração foi feita depois de a Rússia ter anunciado que está a retirar algumas tropas de manobras junto à fronteira da Ucrânia que causaram receio de uma potencial invasão do país.

Falando após uma reunião com o chanceler alemão, Olaf Scholz, Putin disse que os Estados Unidos e a NATO (Organização do Tratado do Atlântico-Norte) rejeitaram a exigência de Moscovo de manter a Ucrânia e outras antigas repúblicas soviéticas fora da Aliança Atlântica, parar de enviar armas para perto das fronteiras da Rússia e retirar as forças da organização da Europa de Leste.

Mas os Estados Unidos e a NATO concordaram discutir uma série de medidas de segurança que a Rússia tinha anteriormente proposto.

Putin indicou que a Rússia está disposta a iniciar conversações sobre a limitação da instalação de mísseis de médio alcance na Europa, transparência de manobras militares e outras medidas de construção de confiança, mas enfatizou a necessidade de o Ocidente atender às principais exigências de Moscovo.

Segurança duradoura na Europa só é possível com a Rússia – Scholz

O chanceler alemão, Olaf Scholz, defendeu hoje que a segurança duradoura na Europa “só é possível com a Rússia” e não pode ser alcançada contra Moscovo, após conversações com o Presidente russo, Vladimir Putin.

“É evidente para todos os europeus que não é possível alcançar uma segurança duradoura contra a Rússia, mas [é] apenas possível com a Rússia”, disse Scholz numa conferência de imprensa conjunta com Vladimir Putin em Moscovo.

O objectivo dos esforços diplomáticos em curso para tentar resolver a crise sobre a Ucrânia é “alcançar um acordo político sem que ninguém tenha de abandonar os seus princípios no processo”, disse o chefe do Governo alemão no final do encontro de cerca de três horas.

Scholz considerou que a situação actual “não é desesperada”, por “muito difícil e grave (…) que possa parecer”, e disse que os esforços diplomáticos para evitar uma guerra estão “longe do fim”.

“Concordo que a diplomacia está longe de estar esgotada. Devemos agora trabalhar resoluta e corajosamente numa solução pacífica para esta crise”, afirmou, citado pelas agências noticiosas internacionais.

Scholz admitiu que o anúncio da retirada de algumas das tropas russas da fronteira ucraniana é um “bom sinal”, que deve ter seguimento.

“Estamos talvez a enfrentar a crise mais difícil e ameaçadora da Europa desde há muito tempo”, disse o líder alemão

Horas antes da reunião entre Putin e Scholz, a Rússia anunciou que algumas das tropas que tinha perto da fronteira com a Ucrânia vão iniciar hoje a operação de regresso aos seus quartéis habituais por terem terminado os exercícios em que participaram.

As autoridades russas não disseram quantos efectivos abrange a medida.

O chanceler alemão reafirmou a preocupação ocidental com o que “irá acontecer a seguir com as 100.000 tropas e actividades” militares russas próximas da Ucrânia.

“Não conseguimos encontrar uma justificação razoável para tal”, disse, reiterando ser “muito importante que haja uma desescalada”.

“Numa situação tão tensa e complicada, isto é muito importante para que não haja guerra”, insistiu.

Scholz explicou que Putin o informou sobre a sua reunião de segunda-feira com os seus ministros dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, e da Defesa, Sergei Shoigu.

No encontro, Lavrov disse que havia a possibilidade de um acordo com os Estados Unidos da América (EUA) e a NATO sobre as garantias de segurança que a Rússia exige ao Ocidente para reformular o sistema de segurança da Europa.

“Estamos prontos, juntamente com todos os parceiros da NATO e a União Europeia (UE), a tomar medidas concretas para melhorar a segurança comum”, disse Scholz.

A Rússia já iniciou um diálogo sobre a questão com os EUA, com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e no seio da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Russian President Vladimir Putin (R) and German Chancellor Olaf Scholz attend a press conference following their meeting over Ukraine security at the Kremlin, in Moscow, on February 15, 2022. (Photo by Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP)

O chanceler alemão reiterou que uma nova agressão militar russa contra a Ucrânia terá “consequências políticas, económicas e estratégicas”, algo que “toda a gente sabe muito bem”, numa alusão à Rússia.

“Queremos lutar por um desenvolvimento pacífico na Europa, para que não haja um confronto militar na Ucrânia”, insistiu.

Scholz disse que ele e Putin concordam que o Formato Normandia, que reúne Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, constitui uma plataforma importante de diálogo para resolver o conflito no Donbass (leste da Ucrânia), onde separatistas pró-russos e o exército ucraniano têm estado em conflito desde 2014.

“Aí, precisamos de movimento e progresso”, disse, numa referência aos poucos encontros ocorridos no Formato Normandia desde a cimeira de 2019.

Recordou que o Presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, se comprometeu a submeter ao Grupo de Trabalho Trilateral (Rússia, Ucrânia e OSCE) os projectos-de-lei sobre o estatuto especial do Donbass, a lei sobre eleições em áreas não controladas pelo Governo ucraniano e a reforma constitucional.

“Este é um bom passo em frente e agora é altura de o construir”, disse Scholz.

Neste sentido, considerou que se Putin reconhecer as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, como lhe foi pedido hoje pelo parlamento russo, estaria a desprezar os Acordos de Minsk para a paz no Donbass.

“Então, o processo estaria terminado e isso seria uma catástrofe política”, disse o chanceler alemão.

Scholz também foi questionado sobre a prisão e condenação do líder da oposição russa, Alexei Navalny, que considerou ser “incompatível com os princípios de um Estado de direito”.

O Ocidente acusa a Rússia de querer invadir novamente a Ucrânia, depois de ter anexado a península ucraniana da Crimeia em 2014.

A Rússia nega qualquer intenção bélica, mas exigiu garantias para a sua segurança, incluindo uma promessa de que a Ucrânia nunca será membro da NATO.

Os EUA alertaram, na sexta-feira, que a Rússia podia atacar “a qualquer momento” e aconselharam os seus cidadãos a sair da Ucrânia, no que foram seguidos por vários países, incluindo Portugal.

Paris saúda retirada de tropas, Berlim e Londres reagem com cautela

A França saudou hoje o anúncio da Rússia de que vai retirar algumas das suas tropas da fronteira ucraniana como um “sinal positivo”, mas Alemanha e Reino Unido reagiram mais cautelosamente e disseram esperar actos concretos.

A Rússia disse que parte das suas forças perto da Ucrânia vão iniciar hoje o processo de regresso aos quartéis por terem concluído os exercícios militares em que estavam envolvidas.

A medida foi divulgada horas antes do início de um encontro em Moscovo entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o chanceler alemão, Olaf Scholz, sobre a crise entre a Rússia e o Ocidente.

“Se forem confirmados, seria um sinal positivo, um sinal de desescalada que temos vindo a pedir há semanas”, disse o porta-voz do Governo francês, Gabriel Attal, citado pela agência France-Presse (AFP).

Attal disse que nas próximas horas, “estão planeados intercâmbios a nível de chefes de Estado, e em particular com o Presidente da República”, referindo que Emmanuel Macron alterou a sua agenda para a tarde de hoje.

“Isto confirmaria também que fizemos bem em retomar o diálogo. Recordo que o Presidente da República [Macron], ao deslocar-se a Moscovo, ao conversar com Vladimir Putin, reiniciou um diálogo com a Rússia, precisamente para alcançar uma estabilização, ou mesmo uma desescalada”, disse Attal.

O porta-voz referiu que desde o início da crise, a França procurou manter uma “linha de prudência, rigor e, sobretudo, de trabalho e diálogo”.

“Nunca estivemos numa reacção exagerada, nem num sentido nem no outro”.

Emmanuel Macron encontrou-se com Vladimir Putin em Moscovo, em 07 de fevereiro, antes de ter uma reunião no dia seguinte, em Kiev, com o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Fonte do Eliseu disse à AFP que Macron voltará a falar esta tarde com o Presidente norte-americano, Joe Biden.

Em Madrid, a chefe da diplomacia alemã, Annalena Baerbock, disse que o anúncio de Moscovo deve ser “seguido de factos”.

“Até agora, só houve anúncios e estes devem agora ser seguidos de factos, porque precisamos de confiança, precisamos de segurança para todos os cidadãos aqui, no nosso país, na Europa”, disse Baerbock numa conferência de imprensa conjunta com o seu homólogo espanhol, José Manuel Albares.

Baerbock disse que a Alemanha não tem ilusões sobre a “capacidade da Rússia para levar a cabo os seus planos”.

Demonstrators shout slogans as they stand with lit flares on a bridge adorned with a banner ‘Ukranians will resist – Say No to Putin’ during a rally in Kyiv on February 12, 2022, held to show unity amid US warnings of an imminent Russian invasion. (Photo by Sergei SUPINSKY / AFP)

“É precisamente por isso que, nas últimas semanas, temos vindo constantemente a apontar ao Governo de Moscovo, a todos os níveis e através de todos os canais, as consequências de qualquer agressão contra a Ucrânia”, disse, citada pela AFP.

Segundo Baerbock, o caminho para sair da crise está “claramente traçado” e passa por conversações entre as partes.

“Cabe agora à Rússia comprometer-se com uma desescalada e apoiá-la com medidas muito concretas, como a retirada das tropas”, acrescentou a chefe da diplomacia alemã.

Também o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, apelou a Moscovo para um “programa de desescalada” que permita uma “sensação de que a ameaça acabou”.

“Acreditamos que existe um caminho para a diplomacia”, disse Johnson em Londres, após uma reunião interministerial de crise sobre a Ucrânia.

Johnson disse que as informações dos serviços secretos sobre a presença russa nas fronteiras da Ucrânia “ainda não são encorajadoras”.

“A Rússia está aberta ao diálogo, mas, por outro lado, a [informação da] inteligência que vemos hoje ainda não é encorajadora”, disse, citado pela AFP.

Referiu-se, em concreto, a “hospitais de campanha russos em construção perto da fronteira ucraniana na Bielorrússia” e a “mais grupos tácticos de combate a aproximarem-se da fronteira”.

“Os sinais são, neste momento, mistos, o que nos dá ainda mais razões para sermos muito firmes e muito unidos, especialmente no que diz respeito às sanções económicas” contra Moscovo em caso de ataque, disse.

Algumas das sanções do Ocidente contra Moscovo, em caso de ataque à Ucrânia, visam o acesso das empresas russas ao mercado financeiro em Londres.

Marcelo defende que todos ganham com a paz e acredita em “solução racional”

O Presidente português defendeu hoje que Ucrânia, Federação Russa, Estados Unidos da América e União Europeia, todos ganham com a paz e manifestou-se confiante numa “solução racional” para esta crise.

Marcelo Rebelo de Sousa assumiu esta posição no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, durante uma conversa com estudantes em conjunto com o Presidente esloveno, Borut Pahor, que também se declarou optimista quanto à resolução da situação na Ucrânia.

“Para todos eles, para a Federação Russa, claro para a Ucrânia, para os Estados Unidos [da América], para a União Europeia, para todos, a paz é a melhor saída, para todos eles. Por vezes no início de um diálogo para alguns o conflito parece ser a melhor solução. Não é o caso. Neste caso a melhor solução para cada um deles é a paz”, sustentou o chefe de Estado português.

Sendo “uma situação em que todos, todos ganham”, e em que “a alternativa é uma situação em que todos, todos, perdem”, o Presidente afirmou a convicção de que “vai acontecer, não a irracionalidade, mas a racionalidade”.

Marcelo Rebelo de Sousa, que falava em inglês, considerou que com a pandemia de covid-19 “o medo, a ansiedade, desentendimentos, falta de diálogo entre o poder e os cidadãos, entre os cidadãos criaram alguma irracionalidade”, mas que nesta crise tem havido “tempo suficiente para compreender a racionalidade, o que torna mais fácil encontrar uma saída racional”.

A demonstrator carries a caricature depicting Vladimir Putin, Joseph Stalin and Adolf Hitler as she walks with others during a rally in Kyiv on February 12, 2022, held to show unity amid US warnings of an imminent Russian invasion. (Photo by Sergei SUPINSKY / AFP)

Depois de ouvir o seu homólogo esloveno declarar que é possível alcançar uma solução pacífica e que se deve acreditar que a Rússia não irão invadir a Ucrânia, o Presidente português falou aos estudantes sobre a importância de “compreender as diferenças”.

“Há sempre uma saída, sempre. Requer paciência, diálogo, compreender as diferenças. É tão importante na vida do dia a dia compreender a diferença entre nós e os outros, somos diferentes, todos nós, na nossa vida diária temos de viver com pessoas que pensam de modo diferente, amam de modo diferente, têm emoções diferentes, nas nossas famílias, com os nossos amigos, e precisamos de os aceitá-los como são e eles precisam de nos aceitam como somos”, disse-lhes Marcelo Rebelo de Sousa.

No final desta conversa, Borut Pahor perguntou quem é que na assistência estava pessimista em relação à situação na Ucrânia e em seguida observou: “Toda a gente está optimista? Partilho a vossa visão”.

“Vamos dar uma oportunidade aos russos e acreditar que 4.ª-feira não será o Dia D” – Borut Pahor

Em Lisboa, o Presidente esloveno considerou hoje que se deve ser dar uma oportunidade aos líderes russos, embora mantendo a cautela, e acreditar que não irão invadir a Ucrânia e que esta quarta-feira não será o Dia D.

Borut Pahor falava no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, após ter recebido um doutoramento honoris causa, numa conversa com estudantes em conjunto com o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa.

Questionado por um aluno sobre as relações entre a Rússia e a Ucrânia, o Presidente esloveno respondeu: “Deixe-me ser claro, porque amanhã é quarta-feira e há muitas informações relacionadas com o que acontecerá amanhã. Estou profundamente convencido de que não há necessidade de acreditar que amanhã será o Dia D”.

“Há falta de confiança entre o Ocidente e a Federação Russa, e a responsabilidade está sobretudo no lado russo. Porquê? Porque Putin prometeu-nos em 2014 que não iria invadir a Crimeia, prometeu-nos publicamente, e depois no dia seguinte invadiu a Crimeia”, referiu Borut Pahor.

“Portanto, devemos ser cautelosos, mas vamos dar uma oportunidade aos russos de manter a sua promessa”, acrescentou.

O Presidente esloveno manifestou-se convicto de que “há suficientes possibilidades, opções, o que lhes queiram chamar, para o diálogo entre o Ocidente e a Federação Russa” e frisou que “a Eslovénia quer acreditar no que os líderes da Federação Russa estão a prometer, que não irão utilizar a força para invadir a Ucrânia”.

Por outro lado, nesta conversa com alunos do ISCSP, Borut Pahor apelou a que a União Europeia se preocupe com os Balcãs Ocidentais e actue agora, em particular em relação à Bósnia, para que se torne “um Estado funcional”.

“Façamos o nosso trabalho. É difícil, complexo, mas seria um imenso erro da União Europeia, por estarmos ocupados com outros assuntos, subestimar a paz e a segurança nos Balcãs Ocidentais. Nos próximos meses e anos esta pode ser uma região de problemas para a União Europeia. Vamos agir agora”, pediu.

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