Doar o corpo à ciência é fundamental para o ensino e altruísmo para quem doa. FOTO: JOSÉ COELHO / LUSA

Em 2020, a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto recebeu 28 cadáveres para serem estudados por alunos e professores, algo “imprescindível” para a coordenadora da Unidade de Anatomia e um “acto de solidariedade” para quem doa.

Estes 28 corpos contrastam com apenas um recebido em 2001. Entre 2001 e 2010, as entradas de cadáveres não chegaram às 10. Contudo, nos anos seguintes e até hoje, os números foram sempre subindo e nunca mais ficaram abaixo da dezena, nem mesmo durante o período da pandemia de covid-19.

A subida de doações poderá ser explicada pelo facto de as pessoas terem cada vez mais percepção da importância do estudo do corpo humano, porque nada substitui a aprendizagem e investigação em cadáveres humanos, nem mesmo a evolução tecnológica, contou à Lusa a responsável pelo departamento, Dulce Madeira.

Além de potenciar o avanço da investigação e da medicina, dá, também aos alunos, a noção da relação entre a vida e morte e tem reflexo na qualidade dos actos médicos e cirúrgicos, sublinhou.

Quem entra no Departamento de Anatomia, rapidamente se confronta com essa realidade visto que, em cada uma das salas, há um esqueleto humano, assim como algumas peças anatómicas (partes de corpos), devidamente preservadas e colocadas em armários. Contudo, ao contrário do que se possa imaginar, não há qualquer cheiro.

Já os cadáveres não estão à vista, estando num local do qual só são de lá retirados aquando das aulas e exames e, no final, voltam a ser lá colocados.

Ao contrário dos corpos, as partes anatómicas que já foram dissecadas e que estão devidamente divididas estão colocadas em caixas para, a qualquer momento, poderem ser utilizadas.

Anatomia significa “cortar” e é pelo corte metódico do corpo, ou seja, pela sua dissecção, que se estuda a estrutura e a constituição do ser humano.

Numa das paredes a inscrição em latim ‘Vivitur Ingenio. Caetera Mortis Erunt’ (O génio sobrevive. Todo o resto é mortal) remete para a morte e vulnerabilidade do corpo humano.

Recuando ao seu tempo de estudante de Medicina, onde se contam algumas décadas, disse em tom de brincadeira, a também professora de anatomia revelou que, ainda hoje, existe naquela unidade uma peça anatómica dessa altura, o que demonstra o “respeito e cuidado” com que são tratados os cadáveres, vincou.

Um corpo doado, que Dulce Madeira classifica como um “bem precioso”, depois de conservado com substâncias químicas, dura anos e tem várias utilizações.

Doar o corpo à ciência é fundamental para o ensino e altruísmo para quem doa. FOTO: JOSÉ COELHO / LUSA

Doar é um acto voluntário e não envolve custos para o dador, recordou a professora, acrescentando que muitas das intenções de doação acabam, na sua maioria, por não se concretizarem.

E é precisamente para que as famílias respeitem a vontade dos dadores que Clotilde Fernandes, de 43 anos, defende a criação de uma lei nesse sentido.

Agente da PSP em Gondomar, no distrito do Porto, Clotilde Fernandes está habituada a lidar com “muitas coisas más”, mas foi a morte do comediante Badaró, em 2008, que a despertou para a doação cadavérica, algo que não sabia que era possível.

Clotilde Fernandes foi amadurecendo a ideia que acabou por concretizar após a morte precoce de colegas de trabalho e dos pais, comentou.

Mãe de três filhos, a agente da PSP confidenciou que estes não ficaram surpreendidos com a decisão, tal como o marido.

“Eu penso que, apesar de estar morta, posso ser uma semente para o futuro e essa semente pode vir a dar frutos”

Surpresos e inconformados com a decisão de Ana Cristina, de 39 anos e residente em Vila do Conde, igualmente no distrito do Porto, ficaram os seus filhos e pais porque são “muito tradicionais” e defendem que após a morte o caminho deve ser o cemitério, notou.

Contudo, Ana Cristina, proprietária de uma padaria, não está sozinha nesta decisão. Também o seu marido decidiu fazer o mesmo e, entretanto, uma amiga.

“Devemos ajudar sempre o próximo, é essa a mensagem que quero passar, até porque, se podemos ser úteis depois da morte, porquê não sê-lo”, questionou, ressalvando que a doação é “um passo” para o progresso e para um futuro mais esclarecido.

Muitas vezes, a família teme concretizar a doação por receio de não poder realizar cerimónias fúnebres, algo que é permitido antes do corpo ser transportado para a faculdade, clarificou a directora da Unidade de Anatomia.

Doar o corpo à ciência é fundamental para o ensino e altruísmo para quem doa. FOTO: JOSÉ COELHO / LUSA

A partir do momento em que entra nas instalações, o cadáver perde a sua identidade não tendo, quer alunos, quer médicos que o estudem, acesso à sua identificação, historial médico ou causa da morte, porque o princípio é o da “descoberta”, reforçou.

Por isso, avançou, qualquer pessoa pode ser dadora, independentemente do sexo, idade ou doenças associados. Porém, as mulheres entre os 50 e 60 anos são quem lideram as doações.

E depois de estudado e dissecado o que é feito do cadáver? Na maioria dos casos é cremado e entregue à família, na eventualidade desta não querer as cinzas são depositadas no cemitério de Agramonte, no Porto, onde anualmente é realizada uma cerimónia de agradecimento pelo “enorme gesto” de altruísmo e bondade, revelou Dulce Madeira.

Ser dador é simples. Basta apenas preencher um formulário na página da Unidade de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e esperar que, na morte, a sua vontade seja cumprida.

Suraia Ferreira (texto), André Sá (vídeo) e José Coelho (fotografia), da agência Lusa.

SVF // LIL

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