António Guterres, secretário-geral do ONU, durante as comemorações dos 25 anos da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia em Portugal e dos 10 anos do Museu do Côa, Vila Nova de Foz Côa, 30 de julho de 2020. ESTELA SILVA/LUSA

O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e antigo primeiro-ministro de Portugal, António Guterres, foi hoje homenageado por ter suspendido a construção da barragem do Côa, para salvaguardar as gravuras rupestres património da humanidade.

O nome de António Guterres está gravado numa placa de xisto, no Museu do Côa, em Vila Nova de Foz Côa por, há 25 anos, ter tomado a decisão de parar a barragem do Côa quando era primeiro-ministro, o que permitiu criar o Parque Arqueológico do Vale do Côa, elevar as gravuras a Património Mundial e construir o Museu.

“É um momento extremamente agradável, sinto-me humilde porque acho que o que se fez é exactamente o que devia ser feito. Acho que não mereço ser homenageado por isso, mas, ao mesmo tempo (estou) satisfeito com esta realidade magnífica que é o Vale do Côa”, partilhou Guterres com os jornalistas, após o descerramento da placa de xisto com o seu nome e perfil, na entrada do auditório do museu que passou a ter o seu nome.

A homenagem foi integrada na sessão comemorativa dos 10 anos do Museu do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, no distrito da Guarda, e dos 25 anos da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (1995-2020).

Na sessão, o presidente da Fundação Côa Parque, Bruno Navarro, destacou que com a decisão histórica e “corajosa”, António Guterres “deu uma lição ao mundo que ainda hoje é saudada e serve de inspiração nas mais diversas latitudes”.

“A homenagem singela que hoje fazemos ao Engenheiro António Guterres, inscrevendo o seu nome e perfil em rocha de xisto, tal como fizeram os nossos antepassados desde há 25 mil anos, esperando que ela aqui perdure, pelo menos, pelos próximos 25 mil, além de servir de reconhecimento público que é da mais elementar justiça”, afirmou.

Bruno navarro acrescentou que a mesma “corresponde inteiramente ao sentimento generalizado de agradecimento das populações que habitam no Vale do Côa e Douro Superior”.

A esta homenagem associaram-se vários ministros e outros membros do Governo, representantes da Assembleia da República, instituições de ensino superior, investigadores, autarcas e outras figuras associadas aos projectos da Arte do Côa.

O Museu do Côa começou a ser pensado logo nos primeiros dias da polémica da construção da barragem, no Baixo Côa, em 1995, mas foi apenas após a classificação da Arte do Côa como Património Mundial, em 1998, que o Governo português se comprometeu com a construção de um grande museu.

O primeiro projecto do Museu do Côa (1998) esteve pensado para o local do paredão da barragem do Baixo Côa, entretanto abandonada. Porém, por decisão governamental, o actual museu ganhou corpo em novo local, junto à foz do rio Côa.

A obra iniciou-se em janeiro de 2007 e o museu foi inaugurado em julho de 2010.

O projecto de arquitectura é da autoria da dupla Tiago Pimentel e Camilo Rebelo, muito inspirada na “Land Art”, integrando-se em harmonia na envolvente, quer na volumetria, quer assimilando cores da paisagem e a sua luminosidade.

António Guterres aponta multiculturalidade como riqueza e não ameaça para o mundo

O secretário-geral das Organização das Nações Unidas (ONU) apontou o exemplo do Vale do Côa para afirmar que o encontro de culturas e a multiculturalidade são riqueza e não ameaça para a sociedade.

António Guterres foi hoje homenageado por há 25 anos ter decidido parar a construção da barragem do Côa e preservado as gravuras património da Humanidade, que usou como exemplo para falar dos conflitos sociais no mundo.

O antigo primeiro-ministro português aproveitou a oportunidade para fazer uma reflexão sobre a identidade, uma palavra que considerou “tem sido muito mal usada, recentemente, por alguns líderes políticos de várias partes do mundo, como um factor de divisão e de discriminação”.

“Em nome da identidade têm-se manifestado formas irracionais de nacionalismo, por vezes mesmo de xenofobia e de racismo”, sustentou.

António Guterres defendeu que a identidade está na “diversidade” e as gravuras (do Côa) são uma componente dessa diversidade.

Tal como as gravuras testemunham outra cultura, António Guterres, entende que a história da Humanidade mostra que a identidade “sempre foi feita num encontro de culturas, de civilizações e é uma identidade baseada na diversidade e a diversidade não é uma ameaça, é uma riqueza”.

“E todos os responsáveis políticos têm de saber valorizar essa riqueza, em vez de usarem a identidade como factor de divisão, particularmente em períodos tão difíceis como aqueles que hoje o mundo atravessa com a covid-19”, vincou.

António Guterres (C), secretário-geral do ONU, acompanhado por Elisa Ferreira (D), comissária Europeia da Coesão e Reformas (D), e pelo presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro Martins (E), passeia junto ao Museu do Côa no fim das comemorações dos 25 anos da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia em Portugal e dos 10 anos do Museu do Côa, Vila Nova de Foz Côa, 30 de julho de 2020. ESTELA SILVA/LUSA

É também nestes momentos difíceis que António Guterres observa “com alguma tristeza, que há uma tendência em períodos de austeridades para começar por sacrificar áreas como a Ciência e a Cultura.

“É um erro”, considerou, defendendo que são áreas que “deviam ter uma prioridade nas políticas e afectação de recurso”.

“Pensar que, em período de austeridade, se poupa dinheiro poupando na Ciência ou na Cultura é um erro grave e espero que em Portugal esse erro nunca mais seja cometido e é importante que isso se verifique também por toda a parte”, declarou.

Lamentou ainda que “numa fase tão difícil” como a que atravessa actualmente o mundo, “infelizmente se verifica que alguns dos valores essenciais com que a Europa contribuiu para a civilização universal, estão a ser postos em causa”.

“Há uma emergência da irracionalidade, dos populismos, dos nacionalismos estéreis, há uma emergência de formas de divisão que se caracterizam à escala global e que explicam porque é que o covid-19 está a ser combatido de uma forma tão lamentável com uma total desagregação dos esforços que deviam existir”, afirmou.

António Guterres foi hoje homenageado com a atribuição do ser nome ao auditório do Museu do Côa, equipamento que é a montra do parque arqueológico com as gravuras rupestres com mais de 25 mil anos.

Na entrada do auditório foi descerrada uma placa com o nome e o perfil do homenageado, gravado em xisto, como as gravuras do Côa.

Pela luta por este património “único na história da Humanidade”, Guterres prestou homenagem “a todos que se mobilizaram para defender as gravuras e a todos os que têm trabalhado para valorizar, preservar e permanentemente investigar este extraordinário património”.

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