O primeiro-ministro, António Costa (E), conversa com o ministro de Estado e das Finanças, Mário Centeno (D), durante o debate parlamentar de discussão na generalidade do Orçamento do Estado para 2020 (OE2020), esta tarde na Assembleia da República, em Lisboa, 09 de janeiro de 2020. MIGUEL A. LOPES/LUSA
O primeiro-ministro, António Costa, conversa com o ministro de Estado e das Finanças, Mário Centeno, na Assembleia da República, em Lisboa, 09 de janeiro de 2020. FOTO: MIGUEL A. LOPES / LUSA

O ministro das Finanças cessante, Mário Centeno, afirmou hoje que sai do Governo no “fim de um ciclo” na presidência do Eurogrupo, e assegurou que “nada mudou” na sua relação com o primeiro-ministro.

Em entrevista à RTP, Centeno afirmou que a saída do Governo, que se concretizará na segunda-feira, foi “uma decisão construída” ao longo do tempo com o primeiro-ministro, António Costa, com quem disse ter relações “saudavelmente tensas”, mas que se mantiveram idênticas durante os quatro anos e meio de convivência governativa.

“Todas as leituras que têm sido feitas sobre a minha relação com o primeiro-ministro são descontextualizadas: não houve nenhuma deterioração dessa relação, nem podia haver”, assegurou, classificando a relação com António Costa como “absolutamente clara e absolutamente transparentes”.

O ministro das Finanças assegurou que “nada mudou do ponto de vista político, nada mudou no relacionamento pessoal” e considerou até que não se pode conceber “uma situação em que o ministro das Finanças e o primeiro-ministro não estejam numa relação tensa, mas saudavelmente tensa”.

Questionado sobre o momento escolhido para a saída – que coincide com a crise causada pela pandemia de covid-19 -, Centeno ligou-o apenas ao fim da sua presidência do Eurogrupo, que terminará em 12 de julho.

“É o fim de um ciclo, era o fim de um mandato no Eurogrupo”, afirmou, salientando a relevância para Portugal de ter ocupado, pela primeira vez, a presidência desta instituição.

Mário Centeno assegurou que “não há nenhum motivo” adicional para a sua saída do Governo nesta altura e rejeitou que tivesse pensado demitir-se quando se reuniu com o primeiro-ministro há algumas semanas, a propósito da polémica sobre o Novo Banco.

“Nunca esteve em cima da mesa”, afirmou, dizendo que havia necessidade de “clarificar uma situação que estava a crescer em termos públicos”.

Centeno diz que ser governador do BdP é cargo que qualquer economista gostaria de desempenhar

O ministro das Finanças cessante, Mário Centeno, remeteu hoje para o Governo a decisão sobre quem será o próximo governador do Banco de Portugal, mas admitiu que é um cargo que qualquer economista gostaria de desempenhar.

Em entrevista à RTP, Mário Centeno admitiu ter falado desse assunto com o primeiro-ministro, mas salientou que a escolha do sucessor de Carlos Costa “é uma competência do Governo”, lembrando apenas que é funcionário do Banco de Portugal (BdP).

Questionado se este seria um lugar apetecível para si, Mário Centeno, economista, respondeu: “É um cargo que é muito importante para o país e que não vai perder importância nos próximo anos, é um cargo que qualquer economista pode gostar de desempenhar”, afirmou, dizendo estar “apenas a fazer uma interpretação do cargo”.

Sobre os diplomas aprovados na generalidade no parlamento e que, se vierem a ser lei, criarão um período de nojo entre funções governativas e na liderança do banco central, o ministro das Finanças disse desconhecer qualquer país que tenha “esse género de incompatibilidades escritas em normas”.

Mário Centeno / FOTO LUSA

“Ser governante não é propriamente um cadastro”, reforçou, questionando, depois de ter sido ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, que cargos poderia desempenhar seguindo esse tipo de critérios.

Mário Centeno salientou que, em Portugal, três governantes do PSD “assumiram cargos desta natureza após terem sido governantes” e aconselhou o país “a não se pôr mais restrições a si próprio”.

“Todas as coisas boas têm um fim”, diz Centeno ao lançar sucessão no Eurogrupo

O ministro Mário Centeno comentou hoje que “todas as coisas boas têm um fim”, no final de uma reunião de ministros das Finanças da zona euro na qual comunicou aos seus homólogos que não será candidato a um segundo mandato.

Na conferência de imprensa que se seguiu à reunião, celebrada por videoconferência, Centeno indicou que informou os ministros sobre “os procedimentos para a eleição do próximo presidente do Eurogrupo”, adiantando que “a abertura oficial de candidaturas será lançada em breve pelo Conselho, e os ministros terão até 25 de junho para enviar as cartas de motivação a apoiar as respectivas candidaturas”, com a eleição a ter lugar no início de julho.

“Informei os meus homólogos que não me candidatarei a um segundo mandato. Continuarei presidente até ao final do meu mandato, que é 12 julho. Todas as coisas boas têm um fim. Mas ainda me verão no nosso encontro de julho. Será um ‘grand finale’, com uma agenda preenchida e a eleição do novo presidente”, declarou.

Questionado, pela imprensa espanhola, sobre se gostaria de ver suceder-lhe uma mulher, designadamente a ministra espanhola Nadia Calviño, apontada como uma das favoritas à ‘corrida’ agora lançada para a liderança do Eurogrupo, Centeno escusou-se “especular sobre quaisquer nomes ou tipo de candidatos” e lembrou mesmo que nem sequer votará, pois na próxima reunião no início de julho – ainda sem data ‘fechada’ – já não será ministro em exercício. O voto de Portugal será já exercido por João Leão, que toma posse do cargo na próxima segunda-feira.

“Há imensa qualidade entre os ministros das Finanças no Eurogrupo neste momento […] Podemos dar por adquirida a qualidade do próximo presidente”, limitou-se a comentar.

Mário Centeno e Jean-Claude Juncker / Arquivo

Depois do ‘coro’ de elogios que se ouviu um pouco por toda a Europa por ocasião do anúncio da sua saída, na passada terça-feira, o comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, reforçou hoje o reconhecimento generalizado ao trabalho de Centeno ao longo dos dois últimos dois anos e meio.

“Houve um ponto em que o Eurogrupo atingiu unanimidade hoje, que foi em reconhecer o excelente trabalho de Mário Centeno como presidente nestes dois anos e meio”, declarou.

Dirigindo-se a Centeno, Gentiloni disse considerar pessoalmente que a sua liderança “foi absolutamente notável”, e voltou a lembrar aquele que é apontado como um dos feitos do seu mandato, quando em 09 de abril passado, ao fim de uma ‘maratona’ negocial, “o Eurogrupo surpreendeu os céticos e atingiu um acordo” sobre um pacote de resposta de emergência à crise da covid-19, no montante de 540 mil milhões de euros.

“Não é a última reunião, por isso ainda não é altura de dizer adeus, mas já é altura de dizer ‘muito obrigado’, Mário”, concluiu, com as palavras de agradecimento pronunciadas em português.

Eleito em 04 de dezembro de 2017 para a presidência do Eurogrupo, por um período de dois anos e meio, Centeno anunciou esta semana que deixa a pasta das Finanças no Governo, pelo que despedir-se-á do cargo em julho, tornando-se o primeiro presidente do fórum informal de ministros das Finanças da zona euro a cumprir apenas um mandato.

Centeno foi o terceiro presidente do Eurogrupo, depois do luxemburguês Jean-Claude Juncker (2005-2013) e do holandês Jeroen Dijsselbloem (2013-2018).

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