Pedro Cunha
Pedro Cunha, escritor e cineasta, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Esta longa-metragem com produção paraguaia e suporte de vários outros institutos estrangeiros de apoio ao cinema assinala a estreia de Marcelo Martinessi na realização (destacou-se com a curta-metragem “The Lost Voice”, 2016), narra a história de Chela e Chiquita, duas mulheres provenientes de famílias ricas que vivem juntas num relacionamento há mais de 30 anos, mas a situação financeira piorou e elas vêm-se forçadas a vender os bens herdados…

Prepare-se para assistir a um filme sobre um amor interrompido temporariamente durante o qual Chela, personagem encarnada pela actriz Ana Brun (estreia absoluta em cinema), encontra a muito mais jovem Angy, personagem encarnada pela actriz Ana Ivanova, (destacou-se no filme “Luna de cigarras”, 2014), forjando uma nova e revigorante conexão.

Este particular retrato de vida temporário, permite a Chela sair da sua concha e envolver-se com o mundo, embarcando na sua própria revolução pessoal e íntima!

É incontornável referir o notável trabalho executado pelo director de fotografia Luis Armando Arteaga (destacou-se com o filme “The Family”, 2017), que contribui decisivamente em manter o espectador próximo e, até mesmo íntimo dos personagens, fornecendo-nos os recursos para investir nesta história até ao fim!

O ambiente criado, nos contrastes tonais, entre sombra e imagem narrativa elevam-se numa poética cinematográfica exuberante fazendo lembrar quadros cinematográficos de Manoel de Oliveira.

Por seu lado, o realizador Marcelo Martinessi astuciosamente combinou subtileza, melancolia, observação satírica e sinceridade sobre sexo relativamente a pessoas idosas que experimentam uma floração comovente e agridoce numa fase mais avançada das suas vidas a qual não deixará ninguém indiferente!

Se mergulharmos no mundo actual da digitalização, a personagem Chela com a sua congelada e delicada timidez, combinada com a retraída afirmação feminina pode ser transversal a ambos os sexos na sociedade actual.

Cada vez mais se vive atrás de um monitor de computador ou de um telefone móvel e, a libertação para os relacionamentos presenciais apesar de correspondidos “online” que exercem enorme excitação e perplexidade, podem esbarrar com um novo poder físico que se materializou dentro deles (mas inadaptados para o contacto quando olhos nos olhos).

O sexo é parte importante na vida, mas não tudo, e se no passado eram laços de cumplicidades complexas entre o físico e o cognitivo, hoje, possivelmente são apenas encontros para descarga de feromonas e micro prazeres por falta de tempo para um relacionamento que perdure no tempo e na memória.

The Heiresses regista um rico percurso nos festivais de cinema com mais de 30 nomeações um pouco por todo o mundo (sendo o escolhido para representar o Paraguai como candidato a uma nomeação para melhor filme estrangeiro na 91ª edição dos Oscars). Dos galardões arrecadados em Berlim, destaque aos Urso de Prata para Ana Brun como melhor actriz e ao Alfred Bauer Prize (abrindo novas perspectivas na arte cinematográfica) atribuído ao realizador Marcelo Martinessi.

Em Portugal “As Herdeiras” estreou no passado dia 7 de Março (depois da participação no Lisbon & Sintra Film Festival) e, no Luxemburgo ainda não tem estreia prevista.

Bom filme!

Pedro Cunha

 

Assista aqui ao trailer:

 

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