Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Não compreendo muito bem porque se celebram os centenários a partir dos 99 anos passados sobre o acontecimento que se comemora. Para mim faria mais sentido que estas comemorações se iniciassem nos 100 anos mesmo e durante o ano até aos 101ºaniversário.

Contudo, tal não é relevante, o que importa é que não passem em branco as comemorações de figuras e factos deveras importantes e emblemáticos para o País e para o Mundo.

Terça-feira (16) cumpriram-se 99 anos sobre o nascimento de José Saramago, abrindo as celebrações do seu centenário. Saramago foi um Homem grande, não apenas fisicamente (era altíssimo) mas em vários domínios que trabalhou com maestria e elevado talento: o conto, o romance, o teatro, o ensaio.

A ele se deve o reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. De 1980 a 1998 foi acumulando distinções pela sua obra, culminando com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a 10 de Outubro deste último ano.

O discurso que proferiu na Academia Sueca foi um “monumento”, um texto tocante em que lembrou as suas humilíssimas origens na pobre aldeia de Azinhaga, concelho da Golegã.

Lembrou como a avó salvava os leitões do frio gélido do Inverno, enfiando-os na sua própria cama, evitando assim que morressem gelados. Um Homem de elevados princípios morais e dotado de uma inteligência fora do comum.

A Academia decerto terá ficado surpreendida com tamanha sinceridade e humildade, qualidades que assistem os notáveis de espírito, como era o nosso querido compatriota. Tive a honra de o conhecer pessoalmente numa palestra que proferiu na sua Festa e minha Festa, no Avante, e de ter o prazer dele me autografar uma das suas obras, adquirida ali na Festa do Livro, uma das realizações anuais dos comunistas na Festa, o maior acontecimento político e cultural do nosso País.

Os últimos anos da sua vida viveu-os em Espanha, na ilha de Lanzarote com a sua última esposa, de nacionalidade espanhola. Saramago foi sempre um iberista convicto, como o comprova o seu romance A Jangada de Pedra.

Mas o principal motivo que o afastou de Portugal, mas nem tanto, foi o desrespeito do Governo da altura, na figura de um imbecil de seu nome Sousa Lara que reprovou a sua primeira candidatura ao Nobel.

Fê-lo por mesquinhez politiqueira, exactamente por causa da condição de comunista do escritor, membro do PCP desde a clandestinidade. Aderiu ao Partido em 1968. De Sousa Lara ninguém fala nem falará, coitadito! Fraco de princípios e reduzido de inteligência.

Em 1974, após a Revolução, aderiu ao P. Popular Monárquico (ele reclama ser marquês e conde…), daí transitou para o PSD em 87 e em 2019 para o Chega. Uma criatura de ideias “claras e bem definidas”, como se vê! E que de Literatura não entende um chavo…

Saramago deu a Portugal o segundo Prémio Nobel do País e a sua obra literária corre o Mundo, traduzida em variadíssimas línguas. Obrigada, pela pessoa que foste, pelo escritor laureado, pelo cidadão exemplar. Viva Saramago!

Um abraço amigo para todos e outro especial para os que amam os livros, companheiros fiéis que nunca nos abandonam.

SQ

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