Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente no LUX24.

As capicuas, também chamadas de números palíndromos são, como é sabido, aqueles que se leem de igual modo, da esquerda para a direita, como é comum nas línguas ocidentais, ou lendo da direita para a esquerda. 2002 foi então um palíndromo e até que encontremos outro, a partir de datas, temos de deixar passar pelo menos um século: 2112.

Por serem “raras” muitas vezes as capicuas são associadas a bons augúrios, a “sorte”. Mas será sempre assim? Ainda falando em datas, lembro o palíndromo 1991: ano do desmoronamento do bloco soviético. Com ele caíram as suas políticas sociais, de grande avanço em relação às praticadas no ocidente.

Trouxe-lhes sorte este ano de má memória? Salários sem grandes diferenciações, igualdade de tratamento no trabalho entre mulheres e homens, saúde e educação gratuitas. Como “dizia” a raposeca Salta Pocinhas do nosso Aquilino: “Oh, oh, assim também eu queria!” Todos estaremos lembrados do drama do nosso concidadão que tendo sofrido um grave episódio de doença nos Estados Unidos, está passando por um mau bocado, sem dinheiro para liquidar a astronómica conta do hospital.

(Aquela “conversa” dos seguros de saúde, estão lembrados? Manobras para desresponsabilizar o Estado das suas obrigações perante os cidadãos, ao mesmo tempo espoliando o desgraçado contribuinte, sempre o elo mais frágil destas emaranhadas cadeias!)

Regressando à questão primeira: venho falar-vos de outra capicua que não trouxe consigo sorte alguma. Antes dor, revolta, um sentimento de impotência e também de medo, porque nunca se sabe quando regressa o terror!

Este ano e já nesta semana que corre, foi atingido o número de 22 – a capicua – mulheres mortas em contexto de violência doméstica. Em casa, em estabelecimentos e também em plena via pública, à vista de todos.

Como se a agressão e no limite a retirada da vida do “oponente” fossem perfeitamente “naturais” e como tal aceitáveis! Sucumbiram estas vinte e duas mulheres à fúria gratuita e inumana de maridos, companheiros, ex-parceiros.

Quando acabará este revoltante estado de coisas? Quando se constituirá a vida como valor inalienável, não pertença de ninguém? A escola tem nesta, como em tantas outras matérias igualmente sensíveis, grande tarefa a desempenhar e grande responsabilidade.

Sim, porque frequentemente os maus-tratos, o desrespeito, a agressão física e psicológica começam com as primeiras relações “amorosas” (!!!), na mais tenra juventude.

Lutemos por um Mundo civilizado, no qual o respeito pela pessoa humana seja pedra de toque de toda a vida em sociedade.

Um abraço caloroso. SQ

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