Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Duas semanas depois das eleições, o último fim de semana foi marcado pelas diversas tomadas de posse dos órgãos autárquicos em todo o País. Sou autarca desde Janeiro de 1998, apenas tendo estado ausente destas funções um mandato.

Quero com isto dizer que já passaram por mim muitas tomadas de posse, acto a que sempre compareço imbuída da vontade de trabalhar e não defraudar de jeito algum os que depositaram em mim a sua confiança, servindo com igual empenho os que tiveram outras opções de voto.

No domingo foi assim a tomada de posse dos órgãos municipais da minha cidade: Assembleia Municipal e Câmara Municipal. E fiquei tão perplexa perante o “espectáculo”! Sim, porque de um espectáculo se tratou. Uma entronização do Senhor Presidente eleito, a que só faltaram o manto de arminho e o ceptro real.

Para já, sabemos todos muito bem, infelizmente, como ainda está acordada e bem acordada esta pandemia perigosa. Tantas recomendações, tantos cuidados, como deve ser, e a sala, com capacidade para cerca de oitocentas pessoas estava à cunha, porque muitos foram os convidados que vieram de outras paragens.

Aliás, foi essa razão que levou a que a cerimónia fosse no domingo porque a hipótese de ser na segunda tinha estado em cima da mesa. Foram convidadas as colectividades, o que acho muitíssimo bem e convites houve de altas individualidades, em minha opinião escusados, (não pondo naturalmente em causa o respeito a elas devido) e que vieram contribuir para o ambiente saturado que tivemos de suportar durante quatro horas!

Quatro horas! Nem a posse do senhor Presidente de República consome este tempo e os autarcas que estavam para tomar posse têm as suas próprias vidas e foram amarrados ali, como se alguém fosse dono do seu tempo.

Depois os cumprimentos… Outra saga… E os Membros da Assembleia Municipal amarrados, repito, porque a seguir seria a primeira reunião do órgão para eleição da Mesa. Vi na televisão os cumprimentos ao Dr. Carlos Moedas, eleito Presidente da maior e mais importante autarquia do País, Lisboa, a capital. Tudo muito mais descontraído e “despachado”.

Aqui, na zona, Cantanhede fez a sua tomada de posse ao ar livre e com um número sensato de assistentes. O mesmo aconteceu em Montemor. Nunca me lembro de ter tomado posse neste ambiente de gala, algo pacóvio e despropositado. Muito lembrando os salamaleques do inefável Conselheiro Acácio, de Os Maias.

Se estavam tão tranquilos quanto à pandemia e (nenhuma) possibilidade de contágios os assustava, por que não foi a cerimónia nos Paços do Concelho, no Salão Nobre, como sempre tem sido? Afinal ali é a casa da democracia local.

E a que propósito foram reservados e marcados com os nomes os lugares das filas da frente para os apoiantes mais chegados do novo Presidente? Não são cidadãos com iguais direitos aos demais? Foi para garantir a proximidade calorosa da claque, termo que utilizo à falta de melhor opção e sem o mínimo intuito de leituras enviesadas?! Mas que foi condenável foi, não me canso de o repetir. Coisa feia mesmo! E uma falta de respeito pelos convidados e apoiantes das outras forças políticas em presença.

Disse o senhor Presidente eleito que iria governar com todos e para todos, como aliás é sua obrigação. Como primeira amostra não se viu isso, antes discricionariedade, discriminação. E quanto terá custado este acto de posse? Funcionários a trabalharem ao domingo e na véspera para compor o cenário.

Por falar em cenário, estive no palco como todos os deputados municipais a suar as estopinhas. Uma panóplia de holofotes acesos sobre as cabeças numa sala a abarrotar de gente, não foi fácil. Nota de sensatez no meio deste exagero absurdo: não ligaram o ar condicionado. Vá lá! Por felicidade lembraram-se da COVID e do seu gosto de se insinuar e “divertir” espalhando o vírus neste tipo de equipamentos.

Esta pompa e circunstância a que gostaria de não ter sido obrigada a assistir, fez-me lembrar uma pomposa e ultra cara passagem de ano no Palácio Sotto Mayor, aquando da primeira passagem do Dr. Santana pela Presidência da Câmara há vinte anos.

Jantar de gala a que fiz questão de não assistir porque isto de esticar o erário público como se fosse elástico em prol de uma espécie de elite, não é aceitável. E é que ele, o erário, afinal, é como a fita de nastro, não cede um milímetro, o magano.

Sr. Presidente, não volte a andar por aí. Os figueirenses agradecer-lhe-ão deveras. Se porventura alguém ficou magoadinho com as minhas palavras, as minhas desculpas.

Mas quem me conhece sabe que nunca deixo para amanhã o que me parece dever ser dito hoje.

Fiquem bem, fiquem alegres e que a esperança de dias felizes não nos abandone nunca.

Por mim: bem dispostinha e ao trabalho que o caminho é sempre em frente.

Um abraço.

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