Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente no LUX24.

Perdoem a expressão, popularucha mas bem exemplificativa da realidade que tão frequentemente vivemos. Vivemos, não. Vivem alguns. Porque se formos comparar as nossas próprias vidas com as de outras, muito menos afortunados, coramos de vergonha com o “exercício”!

Pois dizia: “Quem se lixa… é o mexilhão!” E não profiro nenhuma obscenidade. “Lixar”, esclarece o dicionário, é: “desgastar com lixa”, causar irritação, descontentamento”, “pôr ou ficar em situação complicada = prejudicar”, … Nada de ofensivo, portanto.

Quando utilizamos a expressão, sempre nos referimos à chamada “arraia miúda” no seu relacionamento com os privilegiados. E como vivem bem e sempre intocáveis estes últimos. Nada tenho contra quem tem os seus negócios, desde que honestos e respeitando os trabalhadores, afinal os fazedores das suas riquezas e benfeitorias.

Na altura em que escrevo, o Governo acabou de apresentar a sua resposta, invocando a utilidade pública, após a aceitação pelos tribunais da providência cautelar interposta pelos proprietários de alojamentos no complexo ZMAR. Este foi ocupado para recolher imigrantes, gente miseravelmente explorada nas explorações agrícolas da zona. Pois, quem se lixa é mesmo o mexilhão e estes pobres seres humanos, tratados com tanta desumanidade, são mesmo “mexilhões” a mercê de grandes predadores.

Não sei se viram nas televisões as condições em que muitos destes estrangeiros estão “empilhados” e o estado insalubre das “habitações”. Eu vi e fiquei de coração partido. Mas há muito que se chamava a atenção para uma tragédia anunciada por aqueles lados. Que espero se não repita, mesmo a outra escala, por aqui, pelas minhas bandas.

Um cocktail explosivo que, face à agressividade da pandemia, só podia dar no que deu. Contágios em barda! E quem mais se lixou? O mexilhão!

Lamentável a “preocupação” de algumas personalidades, muito aflitas com as violações dos direitos humanos! Dos mexilhões?! Não! Esses podem continuar na situação em que se encontram: Mal pagos, explorados nos horários de trabalho, sem cuidados sanitários.

Não podem é ir para sítios “chiques” mesmo que a sua condição de saúde o exija no momento. Isso não! Cada macaco no seu galho! As casas, mesmo depois de profundamente limpas e desinfectadas, nunca mais seriam as mesmas.

Tinham conhecido o cheiro da doença, da pobreza, do abandono. Espero bem que o Tribunal esteja à altura das suas responsabilidades e aja em conformidade. Defendendo os direitos humanos. É que os nepaleses, bengalas, indianos, tailandeses, búlgaros também são gente. Sabia, senhor Bastonário da Ordem dos Advogados?

Imagino que este assunto vos toque especialmente. E que nunca passem por estas vias tortuosas do sofrimento silencioso.

Abraço-vos com amizade e na esperança de um Mundo mais igual e mais Humano. SQ

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