O escritor português José Saramago / FOTO DR

Tudo já foi dito e redito sobre o incontornável José Saramago, nossa glória maior da Literatura. Mas não poderia passar ao lado do cumprimento dos cem anos sobre o seu nascimento na semana que corre.

Sim, de facto, Saramago nasceu na humilde aldeia da Azinhaga, Golegã, cumpre-se hoje um século. De origens muito pobres, Saramago jamais renegou o seu passado humilde e foi a partir dele que construiu o belíssimo discurso proferido em Estocolmo, aquando da atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1998, já lá vão 24 anos.

“O tempo voa”, dizemos. E usando o lugar comum, uma vez mais falamos verdade, verdadinha. De tal forma o tempo correu rápido que continua bem vivo na minha memória, e até nos meus ouvidos, esse discurso lindíssimo, sensível e emotivo, no qual o escritor evoca os seus princípios e a saudosa avó Josefa.

A mulher determinada e corajosa que colocava na sua própria cama os bacorinhos frágeis em noites de frio, muito frio. Um acto de sobrevivência, frisou Saramago, mas também de corajoso despojamento pessoal, aponto eu.

Impossível não me recordar também da “saga” que foi a candidatura de Saramago ao prémio Nobel.

Rio quando me lembro daquela lúgubre criatura de seu nome Sousa Lara, na altura secretário de Estado da Cultura (???!!!?) e que tentou por todos os meios inviabilizar que o escritor pudesse ser candidato ao galardão. Uma personagem “sui generis”, tacanha e mais dado a crendices do que à ciência e às artes. Aproximava-se o ano 2000 e algumas pessoas mantinham-se receosas da data!

O escritor português José Saramago / FOTO LUSA

O “iluminado” Lara ficou descansado quando “entendeu” que quem tivesse uma cruz grande em casa, passaria incólume de 31 de Dezembro para o dia 1 de Janeiro! E vai daí, mandou erigir numa terra sua, no Alentejo, uma cruz de enormes dimensões! Que gentinha nos sai na rifa com certos dirigentes políticos. Pergunto como é possível mas temos alguns exemplos de truz!

Saramago arrecadou ao longo da sua vida literária muitos, muitos prémios. Entre eles o Prémio Camões, a distinção mais importante das letras do País. Com ele a prosa em língua portuguesa alpendorou-se ao reconhecimento internacional que merece. Mas o escritor também poetou e de modo inspirado, como não espanta. Escreveu conto, novela, romance, teatro… Sempre exemplarmente.

Recordo com emoção as três vezes em que estive na presença de Saramago. A primeira, estando ele com o amigo de sempre, José Cardoso Pires. A “lotaria e a terminação”, sem qualquer sentido pejorativo. Saramago uma torre, Cardoso Pires um homem pequenino e roliço.

A segunda, quando me autografou um livro na Festa do Avante, eu com o coração a querer sair boca fora. A última, mais à distância, via vídeo. Este enviado por ele à Festa, desculpando-se por não poder comparecer, já tão debilitado e frágil. Extraordinário Homem!

Honra ao nosso Prémio Nobel da Literatura! Gratidão a José Saramago! Aproveitem para lê-lo. Se estão a começar “recomendo” “Levantado do Chão”, um romance admirável, um retrato fiel do seu trajecto enquanto cidadão: defensor da Liberdade, da Fraternidade, dos Mais Desfavorecidos.

Aceitem aquele abraço amigo de sempre.

SQ

Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.
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