Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente no LUX24.

É certo que, como diz sabiamente o povo, “ninguém se tem em má conta”! Assumir os próprios defeitos e falhas é tarefa difícil, muito difícil mesmo. Tão complicada que me fico a pensar que talvez isto seja contrário à própria essência humana.

Provavelmente está (quase) inscrito no nosso ADN que os defeitos e erros são coisa “oculta”, algo que se constitui como tabu nas nossas existências. Daí que sejamos tantas vezes tão intolerantes perante o que consideramos fora da norma, “fora da caixa”.

Mais fácil nos é censurar ou dar um sorrisinho maroto do que reflectir sobre a própria “capacidade” de errar, de fazer o que não é adequado. E se chamados a atenção para uma falhazinha, logo se procura atirar com uma expedita desculpa. “Ah, isso foi porque… assim e assado…”

A assumpção do erro é osso duro de roer! Mas a crítica afiada em relação a outros é “canja”! Muito intolerantes somos, frequentemente. E se alguém “repara” e comenta, depressa: “Intolerante, eu?!” Com o mesmo despacho com que o xenófobo e/ou racista diz:” Xenófobo, eu?! Até me dou com a vizinha da frente que é chinesa!”; “Racista, eu?! A minha empregada doméstica ate é de cor!” E assim por diante.

Vem tudo isto a propósito de um “aniversário” que hoje acontece: no mesmo dia 26 de Maio do ano de 1857 nascia Georges Gilles de la Tourette, um neurologista que pela primeira vez identificou certas “teimosias” de crianças como desvios neurológicos que escapavam ao seu próprio controle.

Quantas vezes nos deparamos, principalmente em ambiente escolar, com “miúdos difíceis” que teimam em testar a paciência dos seus professores e outros adultos, insistindo no que estão fazendo mesmo após serem veementemente admoestados?!

Piscam os olhos sem parar, inclinam-se para um lado ou para o outro, coçam o nariz com insistência, fazem esgares e caretas, vocalizam sons estranhos, muitas vezes proferem obscenidades terríveis!

E afinal não têm culpa alguma destes tristes episódios, tidos frequentemente por provocação e má educação.

São afinal portadores de síndroma de Tourette, um desvio neuropsiquiátrico hereditário que assalta as crianças por volta dos seis/sete anos e as acompanha pela vida fora.

Embora de la Tourette tenha vivido há mais de cem anos, ainda hoje a informação sobre o transtorno é escassa e os pacientes do síndroma muitas vezes vítima de incompreensão e intolerância.

Repararam como o concorrente norueguês ao Festival da Eurovisão se apressava a pôr os seus óculos escuros (mal começavam os seus tiques?). Pois, ele tem síndroma de Tourette, síndroma que tende a agravar-se em condições de pressão e stress acrescido.

Por isso as crianças portadoras deste problema pioram a sua “atitude” quando estão a ser severamente repreendidas a serem, ao fim de contas, injustamente mal tratadas. Mas tolerância é precisa, não só em casos assim mas em outras circunstâncias com que a vida nos confronta.

Uma semana de Paz e Alegrias.

Um grande abraço daqui. SQ

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