Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente no LUX24.

Há pessoas que passam pela vida sem deixar qualquer espécie de marca e isto é lastimável. Falo de pessoas “normais”, cidadãos comuns, com famílias e vidas comuns mas que nem nuns nem nos outros conseguem imprimir algo que possa perpetuar a sua memória, para além da natural saudade dos seus queridos, quando os têm, na hora da despedida final. Não, não é preciso ter um filho para conseguir o estatuto de “especial”.

Nem é necessário plantar uma árvore, embora seja desejável que todos o fizéssemos. Nem tão pouco é preciso escrever um livro! Principalmente se este vier a pertencer àquele muito abundante grupo dos nossos tempos, “literatura de cordel”. Mais fácil é topar com um “escritor” do que com um jardineiro qualificado.

Bem dizia Saramago:” Hoje há mais quem escreva do que quem leia!” E se ele sabia bem do que falava! O que é preciso mesmo é ser-se GENTE!

Não é uma ”pessoa normal” que quero recordar hoje. Pelo contrário: alguém absolutamente sui generis, único, um ser maravilhoso.

Era Verão, seis de Julho de 1907, no país dos maias, yaquis, zapotecas, todos eles chacinados pela conquista dos brancos. Nos arredores da Cidade do México nascia uma menina linda, de feições estranhas, belíssimas e nada comuns. De seu nome Frida Kahlo, o nome maior das artes “ameríndias”, cujas raízes nunca renegou.

Muito cedo Frida se revelou um ser de excepção: de personalidade forte, insubmissa mas de coração doce e terno. E cedo revelou a sua pintura incrível. Tinha tudo para ser feliz mas raramente o foi, apesar do seu optimismo e garra de viver. Aos seis anos é atacada pela temível poliomielite, doença frequentemente fatal e quando as crianças sobreviviam, ficavam para sempre estropiadas. Foi o que aconteceu com Frida.

Não chegasse tal infortúnio, tem um terrível acidente no autocarro da escola, numa colisão com um eléctrico. Entre a vida e a morte, mais uma vez a engana mas fica terrivelmente deformada, por força de múltiplas fracturas e esmagamento de ossos. Tinha dezoito anos e durante o resto da sua vida, foi sustentada por aparelhos dolorosíssimos que lhe deixavam o corpo ferido e num desconforto atroz.

Mas Frida era mais forte do que a adversidade. Pinta sem descanso e os seus auto retratos dão a clara noção do que era o seu sofrimento constante. Apaixona-se por um companheiro das artes e da política, marxista revolucionário como ela: Diego Rivera.

Muitas aventuras amorosas tiveram, eram espíritos livres e assunto de falatório entre a sociedade. Mas nada disso os tolhia, eram verdadeiras almas gémeas que sempre acabavam voltando para o aconchego dos braços um do outro, mesmo depois de um divórcio e de um segundo casamento.

Eram almas gémeas na arte, na vida, nos projectos de revolução popular que defendiam para a sua amada Pátria.

Frida partiu aos quarenta e sete anos, ficaram chorando Diego e o México. Permaneceu a sua arte, a sua luta pela libertação das mulheres e por condições de vida dignas para os mais desfavorecidos.

Adoro Frida! Ela é inesquecível!

Uma feliz semana. Abraço grande. SQ

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