Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente no LUX24.

Segundo os dicionários, heróis são os que demonstram grande coragem ou são autores de grandes façanhas. De imediato pensamos nos grandes nomes da História, a mais antiga ou mais recente.

A seguir, lembramos os heróis do quotidiano, os que salvaram vidas por via directa, atirando-se para dentro de um prédio em chamas ou para as ondas bravias de um mar inclemente, buscando resgatar pessoas em perigo. A seguir os que salvaram outros por via “mais indirecta”, através do cuidado e da sua presença constante.

E se temos exemplos nos últimos tempos! Os combatentes contra a maldita pandemia, pessoal médico e de enfermagem, auxiliares de acção médica, bombeiros e tantos outros que têm vindo “a dar o corpo às balas” no momento assustador que atravessamos.

Ficam de fora os heróis absolutamente anónimos, raras vezes referidos e que, afinal, também se destacaram pela sua coragem: contra a injustiça, contra o abuso, contra as desigualdades, os lutadores pela Liberdade.

Ontem deixou-nos um desses. Abalou para outra dimensão num dia de grande simbolismo, o Dia Internacional da Criança. Crianças pelas quais tanto lutou ao defender um Mundo Melhor e mais Justo, um Futuro mais Promissor para elas.

Vítima de um acidente vascular cerebral, faleceu o nosso companheiro Carlos Ferreira. Trabalhador da hotelaria desde sempre, foi membro activo e determinado do seu Sindicato, sendo depois parte da sua Comissão de Reformados. Carlos estava quebrado pela vida e suas vicissitudes mas, mesmo assim, nunca baixou os braços.

A viver sozinho em Massamá, com a esposa internada numa instituição a quilómetros de distância, os seus dias seriam muito iguais e pouco animados. Mas ele nunca esqueceu os seus valores e as suas lutas.

Em 25 de Abril do ano passado, em pleno confinamento, Carlos apanha o comboio para Lisboa, fazendo-se acompanhar da sua bandeira nacional. A que sempre o acompanhou descendo a Avenida da Liberdade, nos desfiles gloriosos desse dia magnífico de festa e de luta.

Um homem com uma bandeira de Portugal sobe a Avenida da Liberdade em Lisboa, por volta das 15 horas, altura em que anualmente se realiza um desfile comemorativo do 25 de abril de 1974 e que, devido à pandemia da covid-19, não pode ter lugar, em Lisboa, 25 de abril de 2020. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Arriscando ser confrontado por causa da sua ousadia, o nosso companheiro sai no Rossio e desfralda a bandeira do seu País. Sozinho “desfila” na Avenida, enquanto todos nós, os seus companheiros das lutas, nos limitávamos a cantar à janela o emblemático ”Grândola, Vila Morena” e/ou colocar uns vermelhíssimos cravos à nossa beira e nas portas das nossas casas.

Não sei se terá desfilado este ano, suponho que sim mas não sei. O que sei é que não estará nos próximos desfiles mas a sua presença estará lá, mesmo sob o manto da invisibilidade.

Carlos Ferreira é já um ícone, um herói ainda muito desconhecido. Tornar-se-á um símbolo: da Liberdade, da Resistência, da Coerência total. Até sempre, companheiro.

Aproveitemos o facto de sermos livres, agradecendo aos que lutaram por que tal fosse uma realidade.

Sejam felizes. Um abraço. SQ

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