Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Homenageio hoje mais um grande escritor em Língua Portuguesa, um dos nossos expoentes literários. António Gedeão, poeta maior, de elevada sensibilidade e que soube censurar o regime fascista de então, usando de subtileza que os broncos não conseguiram interpretar, nem se deram conta.

(O mesmo aconteceu com A tourada, canção interpretada por Fernando Tordo e da autoria de outro grande poeta: Ary dos Santos.)

Mas voltemos a Gedeão ou antes a Rómulo de Carvalho, seu nome de baptismo. Nasceu em Lisboa, a 24 de Novembro de 1906, tendo falecido com a provecta idade de noventa e um anos.

Professor de Físico-Química num Liceu da capital, algumas vezes “chamou” o seu saber científico à sua poesia. Não resisto a citar aqui “Lágrima de Preta”, um libelo contra o racismo, infelizmente ainda tão presente nas nossas sociedades.

(O mais caricato é encontrarem-se pessoas que abrigam nos seus corações profundos ódios rácicos e entretanto fazem questão de proclamar aos quatro ventos: “Eu não sou racista! Pois não, que ideia!)

Conta então o poeta nesse poema extraordinário que pediu uma lágrima a uma mulher negra que estava a chorar. E aqui entra a ciência.

António Gedeão – FOTO DR

Escreve Gedeão: “Mandei vir os ácidos, as bases e os sais…”, “Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.” Uma lágrima igual à de um branco, um amarelo, um índio, um eslavo ou um asiático. Os broncos, que não entenderam o alcance da mensagem contida no poema, também não perceberam o conteúdo de um outro igualmente inspirado e que foi imortalizado na voz potente e deliciosa de Manuel Freire: “Pedra Filosofal”.

E atrevo-me a de novo citar: “Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida…”, “Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida, e que sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança…” “Eles”!

Os broncos que queriam um Portugal que não sonhasse sequer ser algo diferente do que vivia na altura: amarrado, explorados os mais frágeis, perseguidos, mal tratados e mortos os que ousavam opor-se a esse estado de coisas.

Pois, mas além de maus, desumanos, eram pobres de inteligência como comprovam os dois exemplos que recordei.

Sonhemos! O sonho é, de facto, mola, motor da vida, e se desistirmos de sonhar, desistimos de verdadeiramente viver.

Fiquem bem. Procurem a concretização do que sonhais.

Um grande abraço de pré-Natal. SQ

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