Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente no LUX24.

O nosso primeiro encontro, meus amigos, acontece em Dia de Reis, hoje. Segundo a tradição fecha neste dia a época de Natal. Fico sempre tristinha por esse motivo.

A maior parte das pessoas levanta todos os enfeites e a sua árvore, arrumando tudo nos caixotes respectivos. A parte das festas que me desgosta. Tanto que procuro adiar o inevitável. Chego a manter a casa decorada até quinze de Janeiro, tal é o “peso” que me traz  a tarefa.

Parece que se fecha não um tempo mas um sonho, uma ilusão que quero prolongar. Mas terá de ser e portanto, antes que seja, há que aproveitar o que ainda se pode viver. Na noite passada, à semelhança de todas as anteriores de 5 de Janeiro, não apaguei as luzes da varanda nem dos peitoris de janelas. Tomando precauções, claro.

Costumo dizer, brincando, que tal faço para alumiar o caminho dos Magos! Essas criaturas que povoam o nosso imaginário e que são citadas apenas num Evangelho, o de Mateus, escrito por volta do ano 80 da nossa era. Não são referidos como magos, ou como reis, nem como pertencendo a diferentes etnias. Não têm nome tão pouco.

Estes elementos foram sendo acrescentados à história, construindo uma nova estória. Deles diz esse livro que saíram do Oriente e eram grandes sábios, muito respeitados. O próprio governador Herodes, o tirano ao serviço do império Romano que oprimia a Palestina, conhecia a sua fama. Diz Mateus, este provavelmente um hebreu que havia abraçado o novo credo, que os sábios viram uma luz, uma “estrela”, e a seguiram até à humilde cidade de Belém na Judeia.

Feitas contas, muito provavelmente o que viram terá sido o cometa Halley que fez por esse tempo histórico uma das suas aparições. Ou então a esplêndida conjunção de Júpiter e Saturno, a belíssima “Estrela de Natal” que nos calhou observar há poucos dias e que voltará a cruzar os céus daqui a quatrocentos anos, provavelmente durante o dia, não sendo vista pelas gentes do Futuro ainda longínquo.

Observar o céu, especialmente em noites estreladas, comove-me sempre, não sei porquê. Uma “tradição” do meu eu!

Na minha cidadezinha, por culpa da pandemia malvada, não houve a Espera de Reis, uma festa popular antiga e que a população aguarda ano após ano. Para ver Baltazar, com  a cara pintada para parecer um africano e também Melchior e ainda Gaspar, todos montados em garbosos cavalos, bem ataviados para o efeito. Não pôde ser.

Mas encontrou-se uma solução para não quebrar de todo esta tradição bonita: os “Reis” passaram na baixa da cidade no dia de hoje, sem paragens, evitando aglomerações de  curiosos, aproveitando para ir distribuindo votos de Bom Ano, apesar das “nuvens” que tiram o brilho dos nossos dias, mesmo que soalheiros.

Hoje ainda trincaremos filhós e rabanadas, ainda teremos o bolo-rei às nossas mesas, um “primo” gastronómico dos tais sábios orientais, de quem herdou o nome. Há anos, este bolo tradicional, trazia uma fava e um brinde, uma “boa” notícia e uma má”. Segundo a tradição, quem “apanhava “ a fava na sua fatia, teria de pagar o bolo no ano a seguir.

Isto dava lugar a momentos hilariantes: gente engasgada a tentar engolir a dita. Não seria fácil, não. O brinde era para as crianças: um alfinetinho para colocar no chapéu ou no casaco, um berloque, um enfeitezinho mínimo para a árvore. Deixou de ser possível, por motivos de segurança! Mais um exagero, acho eu.

Por que não cortar fatias finas para evitar que a prenda fosse inadvertidamente tragada por uma criança gulosa?! Há tradições que se não deveriam perder nunca!

Porque a tradição deve ser o que é.

Ah, já comeram a vossa romã hoje?

Renovo votos de Ano Próspero e Muito Feliz.

Cuidem-se, protegem-se.

Um abraço “Real”. SQ

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