Rui Martins, activista e dirigente associativo, escreve semanalmente no LUX24.

Tenho sérias dúvidas que – em qualquer momento futuro – existam condições para a criação de uma “Europa federal” a partir dos países que hoje compõem a União Europeia (UE).

Mas tenho outra convicção se esta “federação solta” for construída em torno das instituições e membros da actual UE e for composta de várias federações (de pleno direito) que agregam os países que regionalmente, culturalmente e linguisticamente tem grandes afinidades: Neste sentido, uma “União dos Povos Bálticos”, uma “Federação do centro europeu” ou, sobretudo, uma “federação mediterrânica” desde a Chipre, passando pela Grécia e Itália e estendo-se até Espanha e Portugal faria todo o sentido.

Não há – e provavelmente não haverá nas próximas duas ou três gerações – o sentimento de uma “nação europeia”. É verdade que mercê dos vários programas Erasmus, da Internet e da intensificação da globalização económica e cultural as novas gerações europeias estão mais interligadas do que nunca.

Mas a diversidade cultural entre os países bálticos e mediterrânicos, entre eslavos e a Irlanda, ou entre escandinavos, germânicos e mediterrânicos é ainda demasiado grande para se poder falar de uma “nação europa”.

Se podemos, em tese, falar de “nação europeia” porque o étimo advém de “natus” (nascido”) do ponto de vista estritamente geográfico, o outro requisito, o de se ser uma população estável, historicamente constituída por vontade própria e com base num território mais ou menos estável, numa língua “nacional” e sentido de comunidade comum.

Com efeito, as fronteiras da Europa não são estáveis (termina onde? Nos Urais? na fronteira russa? A Turquia Europeia é Europa? Israel é Europa? Ceuta e Mellila? A população europeia nunca se sentiu como uma havendo centenas de conflitos e guerras nos últimos milhares de anos que testemunham a falta desse sentido de pertença a uma “pátria comum”.

Quanto ao esteio linguístico ele simplesmente não existe, nem sequer se tomarmos o latim como o “terreno mínimo comum” porque tal excluiria as línguas gerências, o finlandês, as línguas bálticas, escandinavas ou eslavas.

Se existe uma “nação europeia” esta terá de ser de um tipo novo: menos assente no passado muito focado para o futuro e naquilo que o processo de construção europeia já conseguiu desde o fim da Segunda Grande Guerra.

Este processo de aprofundamento da integração europeia não pode, contudo, ser forçado e ignorar as identidades e nacionalidades europeias sob pena de entrar em conflito com elas e de ser algo que tenta atravessar a sociedade europeia de cima para baixo, ignorando os povos da Europa num movimento aglutinador e agregador que não tem em conta as realidades locais dos povos do continente.

Talvez em alternativa a um processo deste tipo seja possível aproximar o processo da unificação europeia das suas bases e começar por criar “uniões” dentro da União Europeia, entre os países que mais afinidades culturais, linguísticas e territoriais têm, como os países da costa atlântica (Portugal, Irlanda, Espanha e França), os do mediterrâneo do nordeste europeu, ou os dos Balcãs, ou os do centro, criar instituições neste segundo nível do processo de unificação europeia, até nos campos “tabu” da Defesa, Diplomacia ou impostos e depois de consolidado este segundo nível partir então e somente depois para um processo de unificação europeia de maior amplitude e escala.

Este novo federalismo europeu pela agregação de uma segunda camada de pequenas federações europeias poderia funcionar e transformar a União Europeia naquilo que ela ainda não é: uma verdadeira e profunda união de todos os povos da Europa.

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