Rui Martins, activista e dirigente associativo, escreve semanalmente aos domingos no LUX24.

Desde 2016 que estou activo no meio da Cidadania Activa. No decurso deste percurso pertenci, aderi e trabalhei de inúmeras formas em várias organizações formais e informais, em várias posições mas sempre em torno de duas constantes: sinceridade e compromisso.

Em todas estas experiências encontrei, sempre e a um dado passo, a desilusão de ver como a eficácia deste esforço era ou baixa ou nula e ao fim de algum tempo, invariavelmente, contemplei a possibilidade de deixar o projecto. Invariavelmente, também, registei com frustração que os nossos eleitos – por regra mas nem sempre – não estavam dispostos a ouvir a voz da cidadania.

Por vezes com razão porque ao longo destes anos vi muitos projectos serem destruídos por infiltrações partidárias (nota de interesses: sou militante de um partido político) ou por manipulações transversais a partir de um aparelho partidário (e vi isto a partir de partidos de esquerda e da direita).

Ao fim de todos estes anos é preciso parar para pensar e reflectir na continuação deste esforço: os nossos eleitos e apesar de múltiplas ferramentas de participação (referendos locais, petições, orçamentos participativos, reuniões abertas ou descentralizadas de órgãos autárquicos, etc, etc) não valorizam a participação cidadã.

Admito que a minha opinião esteja condicionada pela acumulação de experiências negativas na Junta de Freguesia onde vivo (Areeiro) onde a resposta autárquica oscila entre a sobranceria, a surdez selectiva ou o desprezo mais profundo e radical.

Mas o fenómeno não existe apenas a este nível local de representação. Com algumas excepções, os eleitos na Assembleia Municipal têm idêntica atitude e não são muitos os vereadores que têm disponibilidade para uma escuta activa dos cidadãos.

Admito esta atitude e até compreendo no contexto de tomada parcial ou total por parte dos partidos de oposição dos movimentos de cidadania que registei mais acima mas a verdade é que esta disponibilidade para a escuta activa por parte de um número significativo dos nossos eleitos (de todos os partidos) afecta todos os cidadãos, por igual, e consequentemente o incentivo à prática de cidadania activa por parte de todos os cidadãos.

A minha experiência destes últimos anos em que faço cidadania activa em Lisboa é que não compensa – praticamente – o esforço de fazer propostas nem à CML nem à Junta de Freguesia (falo apenas daquela que conheço melhor: Areeiro) porque a primeira frequentemente (quase sempre) deixa as propostas por responder e a segunda oscila entre o desprezo total e o aproveitamento (com alterações) alguns meses ou anos depois destas propostas serem feitas.

Em ambas, CML e Junta,  a componente reclamativa tem alguma eficácia mas a generalidade dos nossos autarcas só conseguem inscrever nas suas práticas propostas de partidos e não de cidadãos e isto é a prova provada da imaturidade da nossa democracia local e coloca uma resposta à pergunta “vale a pena fazer cidadania local em Lisboa” fora dos partidos.

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