Rui Martins, activista e dirigente associativo, escreve semanalmente aos domingos no LUX24.

Um relatório publicado a 14 de agosto pelo “Human Rights Council” do Conselho de Segurança da ONU e da autoria da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a República Árabe da Síria apresenta uma visão imparcial mas muito clara e revoltante sobre o que a Turquia e o seu “proxy” o auto-intitulado “Exército Nacional Sírio” (não confundir com o “Exército Árabe Sírio” do regime de Assad) estão a fazer ou que, pela sua inacção ou comando directo sobre a populações curdas do norte da Síria criando aquilo que na prática é uma autêntica limpeza étnica através da expulsão organizada dos habitantes curdos e iazidis das zonas de fronteira com a Turquia e a sua substituição por refugiados sírios de língua árabe por forma a separar as populações curdas dos dois lados da fronteira otomana e a criarem assim, de forma ilegal, que viola os direitos humanos e a soberania síria, uma “zona tampão” entre a Turquia e a Síria.

Com vista a este objectivo o regime de Erdogan não exclui nenhuma manobra ou acção sendo que as mais cruéis e ilegais entrega ao grupo intitulado “Exército Nacional Sírio”.

É no decurso deste objectivo de limpeza étnica que famílias curdas na zona de  Ra’s al-Ayn (nordeste da Síria) perderam as suas casas para ocupantes turcomenos sendo forçadas a abandoná-las fugindo do avanço das colunas do exército turco que invadiram a região em outubro de 2019. Várias destas casas foram marcadas com nomes das “brigadas” que compõem esta organização para-militar financiada pela Turquia e os artigos que ainda estavam no seu interior foram saqueados e vendidos em postos de controle do “Exército Nacional Sírio” por combatentes do Exército Nacional Sírio, depositados em armazéns, ou vendidos em mercados abertos da região.

Uma destas casas foi ocupada e convertida num instituto de estudos do Alcorão administrado por uma ONG turca, a “Fundação para Direitos Humanos e Liberdades e Humanitária Alívio” cuja instalação teve uma inauguração oficial pelo governador de Şanlıurfa (Turquia) o que confirma o nível de autorização que os ocupantes otomanos deram a esta apropriação. Alguns dos civis curdos que protestaram às forças do “Exército Nacional da Síria” nas regiões de Afrin e Ra’s al-Ayn perante estas apropriações foram sequestrados e forçados a pagar resgate.

Os antigos responsáveis pela administração autónoma curda nestas regiões foram perseguidos e alguns detidos pelo “Exército Nacional Sírio” sem aconselhamento jurídico e interrogados por funcionários turcos com a assistência de intérpretes antes ou durante a detenção revelando no processo a verdadeira origem destas detenções arbitrárias e sem qualquer processo legal devidamente estabelecido.

Durante estas detenções o relatório da ONU refere a ocorrência frequente de espancamentos, tortura e privação de comida e água e que durante as mesmas o tema principal dos interrogatórios foi a religião e etnia numa procura aparente por cidadãos iazidis e curdos. Um relato de uma criança curda refere a presença de indivíduos com fardamentos militantes turcos que saíram da sala antes da criança ter sido algemada e pendurado no teto tendo sido então vendada e espancada repetidamente com tubos de plástico.

Noutro incidente, na região de Ra’s al-Ayn uma mulher de origem curda foi ameaçada de violação e espancada por membros do Exército Nacional da Síria, na presença de autoridades turcas.

Boa parte destas detenções ilegais por parte dos paramilitares do “Exército Nacional da Síria” ocorreram, segundo a ONU; em locais não divulgados e desconhecidos das famílias dos detidos. Entre estes desaparecidos contam-se 49 mulheres de origem Yazidi detidas na região Ra’s al-Ayn e Afrin que após terem sido pressionadas a mudarem de religião nunca mais foram vistas sendo que alguns destes detidos, segundo testemunhas, foram posteriormente transferidos pelas forças turcas para a Turquia, sob acusações de assassinato ou filiação a uma organização terrorista, segundo a lei criminal turca.

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