A opinião da psicóloga Rita Limede no LUX24.

Não há dúvidas que ter o mundo na ponta dos dedos trouxe imensas vantagens para o nosso dia-a-dia. Torna a comunicação com os outros mais fácil, facilita na pesquisa de informação e até mesmo na concretização de tarefas práticas (como fazer um pagamento no homebanking ou encomendar o almoço).

No entanto, ter pequenos computadores complexos e avançados na palma das nossas mãos, não vem sem desvantagens – sendo a principal a alteração do nosso tempo de atenção.

Quantos de nós é que conseguem estar sentados no sofá a ler um livro ou a ver um filme sem olhar para o smartphone durante por exemplo uma hora? Quantas são as vezes que agarramos no telemóvel para ver as horas e damos por nós dez minutos depois a vaguear pelas redes sociais? São muitas mais vezes do que aquilo que gostaríamos de admitir.

Então, se num cérebro já desenvolvido como o dos adultos o efeito da exposição aos ecrãs é uma diminuição do nosso tempo de atenção… o que é que acontece no das crianças e adolescentes que ainda se estão a desenvolver?

Nos últimos anos, equipas de neurocientistas, psicólogos, médicos e outros profissionais de saúde e educação infantil realizaram vários estudos dos quais resultaram informações alarmantes sobre o excesso de tempo à frente de ecrãs. Aqui, é de destacar um artigo publicado na revista Quebec Science em março de 2019 sobre o assunto.

A exposição precoce e excessiva a ecrãs – tais como tablets ou smartphones – tem um impacto negativo em diversas funções neurológicas e aspetos desenvolvimentais.

Há assim, uma diminuição na qualidade do sono e bem-estar psicológico, alterações na visão (que levam a problemas de visão mais precoces), alterações na motricidade – em especial na motricidade fina e pega do lápis – dificuldades na socialização com os outros e diminuição dos tempos de atenção, o que por sua vez leva a um menor rendimento escolar e dificuldades gerais de aprendizagem.

Na teoria, a forma mais fácil seria restringir ao máximo o acesso das crianças a estes dispositivos nos primeiros anos de vida, mas na prática não é assim tão simples. Com um mundo cada vez mais caótico e em que estamos muito dependentes destas tecnologias – que foram a nossa grande janela para o exterior nos períodos mais críticos de confinamento nos últimos dois anos de pandemia – o ideal aqui será tentar encontrar um equilíbrio e cultivar hábitos saudáveis.

Não obstante, o mal já está feito – em especial no que toca aos efeitos na nossa atenção – mas não quer isso dizer que não se tente contrariar este efeito e começar a promover hábitos mais saudáveis e restringir os tempos de exposição aos ecrãs, substituindo-os pelas brincadeiras de antigamente, um maior contacto com a natureza e exercício físico sempre que possível.

Não há soluções perfeitas e não se pode mais viver 100% offline, mas podemos encontrar um ponto de equilíbrio entre os dois mundos, que não tenha um impacto negativo (ainda maior) no desenvolvimento infantil e funções neurológicas.

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