
Nos últimos tempos tem sido quase impossível ficar indiferente à polarização de opiniões políticas que andam pelas redes sociais. Com o culminar dos resultados das eleições presidenciais o domingo passado, o nosso país interrompeu por momentos o discurso e o bombardear de informação acerca da situação pandémica que estamos a vivenciar, para se focar no rescaldo das eleições.
Muitos dos artigos e posts focaram-se no facto de um certo partido de extrema direita ter chegado ao meio milhão de eleitores. Números estes chocantes, especialmente se tivermos em conta que Portugal teve durante quase 50 anos uma ditadura fascista. As reações polarizadoras não se fizeram chegar, tendo havido inclusive guerra aberta entre quem acredita (e bem) que tal partido é anti-democrático e aqueles que votaram neles por outros motivos além (dizem eles) de se identificarem com certas “verdades anti-sistema” e não com o discurso de ódio.
No entanto, depois de alguma reflexão, e como fiel defensora da educação livre e democrática como arma para mudar o mundo para melhor, acredito que excluir indiscriminadamente os eleitores desse partido das nossas vidas só vai fazer com que muitos deles se radicalizem ainda mais.
Como li num texto – e muito bem, por uma amiga, o importante aqui é fazermos uma análise crítica ao que se passou. Desse meio milhão, apenas 5% são verdadeiramente fascistas e identificam-se plenamente com o discurso de ódio. São os monstros sem empatia que não conseguem ver para além dos rótulos – cor da pele, religião, etnia, sexualidade, etc. Com esses não pode nem deve haver conversa possível. Porque a liberdade de expressão nunca deve ser uma plataforma para o ódio contra os outros.
No entanto, os outros 95% são pessoas comuns, que se sentiram abandonadas pelo actual sistema, muitos dos quais nunca cultivaram um espírito crítico que lhes permite ir para além dos chavões fáceis de tasca que ficam no ouvido e que dão – ainda que falsas – esperanças que as coisas possam finalmente mudar para eles.
São os pequenos empresários que se sentiram abandonados, são os indivíduos que vivem em bairros problemáticos com vizinhos que lhes dificultam a vida, são idosos isolados sem dinheiro para medicamentos… são pessoas que perderam toda a esperança, que foram abandonadas por anos e anos de políticas mal amanhadas pelos partidos de um bloco central democrático.
Está na hora de se escutar essas pessoas descontentes, que votaram num monstro que desconhecem. Que nas suas vidas pessoais até podem oferecer o que têm e o que não têm ao vizinho que passa fome, que tratam as pessoas todas com o maior respeito. Porque a ignorância política e o desespero não fazem destas pessoas perigosas para a nossa democracia com a sua existência, fazem apenas delas alvos fáceis para se deixarem enganar pelo discurso do vendedor da banha da cobra.
Não podemos nunca colocar de parte alguém apenas porque se deixa enganar, ou agiu por desconhecimento total das consequências. É importante escutar essas pessoas, perceber do que precisam para melhorar as suas vidas, explicar-lhes ao certo quais as consequências das suas escolhas.
O caminho para um mundo melhor para todos nós faz-se assim, com empatia, a tentar compreender o que leva pessoas comuns a votar em monstros e no ódio. Ao excluir indiscriminadamente estas pessoas da nossa vida, estamos a dizer-lhes que os seus erros e ignorância as definem, que aquela cruz no papel vale mais que uma vida inteira de pequenas boas ações. Se queremos salvar a democracia e por em prática o humanismo que tanto apregoamos, este será o primeiro passo. No entanto, nem todos se conseguirão salvar, alguns já estão demasiado lançados no caminho do ódio e vai ser difícil trazê-los de volta.
Apesar de tudo tentar não custa. Temos a obrigação moral de compreender os motivos dessas pessoas, de desconstruir o discurso fácil de tasco de “todos os políticos são maus, mas eu sou diferente” e de levar as pessoas a questionar e a pensar críticamente no que está por detrás desse discurso e nas consequências do mesmo. Só assim podemos endireitar o nosso futuro.
Para terminar, deixo aqui as célebres palavras do malogrado escritor e sobrevivente do Holocausto Primo Levi (retirado do livro “Se Isto é um Homem” de leitura recomendada) – “Os monstros existem, mas eles são muito pouco numerosos para serem realmente perigosos; mais perigosos são os homens comuns, os funcionários dispostos a fazer e a obedecer sem questionar.”
Por favor .







