Rita Limede, psicóloga e produtora de eventos musicais, escreve semanalmente aos sábados no LUX24.

Com a pandemia veio uma revolução na forma como encaramos o trabalho. Para muitos, o teletrabalho passou a ser a norma e em alguns casos a barreira entre casa e trabalho começou a ser transporta, ou até mesmo a deixar de existir.

A juntar a isto o isolamento social e o medo de ficar doente, o burnout veio para ficar junto de muitos portugueses (e não só).

Noutros casos mais felizes, o teletrabalho veio permitir um maior equilíbrio nas vidas pessoais, e o tempo poupado em deslocações começou a ser usado de forma muito mais produtiva. Agora, com o regresso à “normalidade” muitos trabalhadores tiveram a opção de manter um regime de trabalho híbrido e mais flexível, que no final do dia lhes permite uma melhor qualidade de vida.

Qual é então a diferença entre o primeiro e o segundo caso? A mentalidade das chefias e das entidades patronais. Houve quem tornasse o teletrabalho numa experiência mais agradável para os trabalhadores e tivesse daí colhido os frutos – maior motivação e produtividade dos mesmos. Neste caso, os empregadores foram capazes de ter uma visão futurista e moderna para permitir a flexibilização.

Uma mudança em larga escala de paradigmas não acontece do dia para a noite. Enquanto alguns são capazes de a abraçar e ver os pontos positivos e trabalhar para a modernização, outros agarram-se com unhas e dentes às tradições e maneiras antigas, quer por medo da mudança ou pelo conforto e poder que os modos antigos lhes conferem.

Em Portugal, a nível de mentalidade laboral ainda vemos muitos patrões à antiga. Para começar, ainda estamos uns bons anos-luz atrás do nível salarial e políticas laborais europeias, que privilegiam o equilíbrio entre vida pessoal e laboral dos seus trabalhadores.

Isto verifica-se especialmente quando verificamos a existência de patrões que acreditam que mais horas no local de trabalho é equivalente a uma maior produtividade (não é) e que se não estiverem a ver o trabalhador a realizar as suas tarefas à sua frente, é porque as mesmas não estão a ser feitas.

Outro fenómeno que podemos encontrar dentro do nosso tecido empresarial é patrões sem quaisquer características de liderança democrática ou visão estratégica.

Temos neste momento a geração mais qualificada de sempre, que se vê presa em contratos precários ou com salários muito abaixo do custo de vida, que têm dificuldade em conquistar a sua independência financeira ou concretizar alguns projetos de vida – como casar e ter filhos – devido à insegurança laboral.

Muitos têm vindo a abandonar o país em busca de melhores oportunidades pela Europa fora, sem planos de virem alguma vez a regressar (sem ser para férias).

Com tudo isto, estamos não só a desvalorizar os trabalhadores e o seu esforço e competências, como a criar um vazio de lideranças e de profissionais suficientes para garantirem o normal funcionamento do país nos próximos anos.

Os que gostam da moda antiga e que se queixam a que as novas gerações querem tudo de mão beijada, foram os mesmos que tiveram excelentes oportunidades e que logo em seguida trancaram as portas para que os novos não lhes tirassem o lugar.

Quando finalmente essas portas se abrirem, por força do tempo, o que sairá lá de dentro é um enorme cheio a bafio e a estagnação.

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