A opinião da psicóloga Rita Limede no LUX24.

Recentemente tive que lidar com uma tragédia que me deixou, acima de tudo, em choque e com dificuldades em lidar com uma panóplia de sentimentos que iam e vinham a alta velocidade.

Quando alguém que nós conhecemos e temos algum contacto social, mesmo que ocasional, tira a sua própria vida, começam a surgir algumas questões, das quais talvez a mais importante – como é que ninguém foi capaz de prever que isto ia acontecer e oferecer ajuda?

O suicídio é, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a quarta causa de morte mais frequente nas faixas etárias inferiores a 35 anos de idade, sendo mais prevalente nos homens do que nas mulheres.

As causas estão, na maioria das vezes, relacionadas com questões de saúde mental – nomeadamente perturbação bipolar, depressão ou até mesmo ansiedade. De entre estes grupos, são ainda particularmente mais vulneráveis os indivíduos que apresentam consumos patológicos de álcool ou outras substâncias psicotrópicas – legais ou ilegais.

No entanto, não nos podemos esquecer, que estes episódios são muitas vezes despoletados por fatores ambientais – perda de emprego, morte de um ente querido, término de um relacionamento amoroso, bullying ou episódios de violência.

Sabemos que, perante a situação atual de pandemia que ainda estamos a vivenciar, que a saúde mental da população generalizada ficou mais fragilizada. Indivíduos que anteriormente não tinham experienciado qualquer sintoma ou problemas a nível de saúde mental, saíram fragilizados.

Embora ainda seja cedo para se fazer uma associação clara entre a pandemia e um aumento de episódios depressivos e número de suicídios, haverá decerto alguma causalidade a ser tida em conta.

Apesar disso, as pessoas que estão em sofrimento, primeiro que tudo, têm que querer ser ajudadas. Mesmo que sejamos capazes de ver os sinais nas pessoas à nossa volta, se recusarem ajuda, infelizmente não haverá muito a fazer.

Uma das primeiras coisas que nos ensinam num curso superior de psicologia é – não podemos ajudar quem não se permite (ou quer) ser ajudado. Por muito bons que sejamos a ler os sinais de que algo não está bem, se a pessoa recusar ajuda ou negar o que lhe está a acontecer, não podemos fazer nada.

É uma realidade cruel, muitas vezes difícil de explicar às famílias e relações próximas das vítimas de suicídio, mas os milagres não existem para salvar quem desistiu da vida e não quer procurar uma outra saída.

Nestes casos – por entre os sentimentos de culpa por não se ter sido capaz de salvar alguém, ou por não se ter reconhecido os sinais para tentar ajudar ou oferecer ajuda – fica também uma tristeza difícil de gerir que se prolonga durante o tempo.

Afinal, a nossa vida vai continuar sempre carregando o peso progressivamente menor da dor, e eventualmente vamos sentir momentos de alegria e de que a vida vale a pena. O mundo não para de girar sempre que uma tragédia acontece, mesmo que seja essa a sensação com que ficamos.

No final, só me resta esperar que a pessoa tenha encontrado a paz que tanto necessitava. Nós, os que aqui ficamos, não vamos nunca esquecer os bons momentos, mesmo depois de a dor deixar de incomodar tanto.

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