Rui Martins, activista e dirigente associativo, escreve semanalmente aos domingos no LUX24.

Quem anda pouco, mas alguma coisa, nas lides partidárias, não pode deixar de reconhecer que os conflitos internos são frequentemente – ou mesmo sempre – mais violentos que aqueles que ocorrem sob a luz dos holofotes mediáticos entre militantes de diversos partidos.

Este estranho fenómeno, antes da eclosão das redes sociais, era desconhecido fora dos círculos de militantes partidários, mas agora tornou-se público e está a contribuir para a má imagem geral dos partidos junto dos cidadãos.

Vivemos num mundo em que a tensão psicológica é mais intensa do que nunca graças à amplificação da emoção e do imediatismo das redes sociais um fenómeno que é intensificado porque a crise dos partidos e, sobretudo, a crise da sua penetração na sociedade civil levou a que os ditos “partidos de poder” se profissionalizassem a um nível inédito na História da democracia ocidental.

Com efeito, é cada vez mais absoluta a presença de militantes e, sobretudo, de membros dos aparelhos locais e nacionais dos partidos, que dependem directamente ou do cargo electivo, ou do cargo no Governo ou trabalham no Estado ou numa das empresas públicas que operam na órbita do Estado.

Empresários, trabalhadores independentes e, sobretudo, cidadãos sem registo partidário e que nunca militaram numa qualquer juventude partidária são cada vez mais raros nos partidos.

E isso é um problema grave de representação social e produz um grave afastamento dos partidos e das suas elites em relação à cidadania e ao “cidadão comum” enclausurando-os dentro de bolhas de unanimismo e separação que, a prazo, minam a sua capacidade de influência e a sua própria responsividade em relação aos anseios e preocupações dos cidadãos.

Tendo em conta o nível de interpenetração actual entre Poder Local, Estado e dirigentes locais e nacionais dos partidos é difícil reverter este processo de decadência. Mas, como sucede com qualquer problema, havendo vontade: há soluções.

Desde logo é preciso parar com a hipocrisia de querer políticos mal pagos e de tornar as suas remunerações compatíveis com os níveis das suas responsabilidades financeiras e com aquelas que são pagas nas entidades privadas por forma a recativar os melhores e parar com esta sangria que se regista no valor dos nossos autarcas, deputados e políticos eleitos em geral desde há um par de anos e quebrar esta ligação entre juventude partidária > emprego no Estado ou Poder Local > profissionalização da militância partidária e esta linha perversa quebra-se acabando com os altos níveis de discricionariedade nas autarcas com o absurdo vício nos contratos por ajuste directo (desumanamente precários) a avençados em funções ou necessidades permanentes e introduzindo grandes níveis de transparência no processo de selecção.

Sobretudo é preciso desenvolver um verdade “serviço público” entre eleitos e administrativos do Estado e do Poder Local que seja uma grande e prioritária “reforma do Estado” que garanta profissionalismo e acabe com a amadorização da política (no mau sentido) mas que permita que a política partidária não se reduza a uma forma de vida para todos aqueles que não encontraram outras opções para a sua vida.

Só assim se conseguirá uma efectiva amadorização da política (no bom sentido) que traga para o centro dos partidos todos os cidadãos que hoje em dia não se revêm na sua praxis e organização, pesada, hierárquica e rígida de hoje e se permita que todos os políticos eleitos tenham, de facto, vidas profissionais, independentes e livres das teias de dependência das redes clientelares que os colocam mais na dependência dos seus “Patronos” do que da vontade e julgamento permanente por parte dos seus eleitores.

Quanto mais independentes forem os nossos políticos eleitos (em termos pessoais e das fontes de rendimento das suas famílias directas) mais livres, eficazes e de melhor qualidade serão.

Um representante que apenas pode funcionar como uma parte obediente e previsível de uma máquina partidária que o alimenta e que alimenta a sua família nunca poderá ser um representante de qualidade mas um agente passivo numa democracia que se quer e se exige como dinâmica e flexível na resposta às inevitáveis crises que, cedo ou tarde, terá que enfrentar.

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