Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.
Silvina Queiroz, professora.

Bom dia, meus amigos. Quero acreditar que o que de menos bom acontece nas nossas vidas será, na maior parte dos casos, fruto das circunstâncias e não forçosamente da maldade humana.

Optimista que sou, quero acreditar que Rousseau teve alguma razão ao criar o mito do “bom selvagem”, e que nascemos naturalmente bons, sendo a “sociedade” e suas leis e teias, a responsável pelos seus desvios!

Confirmaria esta tese o inocente Tarzan, crescido no meio da selva, sem sequer articular palavras, mas apenas sons simiescos, tendo aprendido a dizer palavras soltas por obra do amor da sua Jane.

Confirmá-lo-ia também Sexta-Feira, o indígena de Robinson Crusoe, um ser amoroso e puro, encontrado pelo desesperado náufrago exactamente numa 6ª feira, passando a vida a ter mais cor e sentido a partir do momento do inusitado encontro.

Ocorreram-me estes pensamentos a propósito do recente desaparecimento da talentosa e extraordinária Maria Guinot. Foi frequentemente esquecida e “colocada na prateleira”, como diz o povo. Quero acreditar que não foi por mal, que foi por acaso, mas… tenho grandes dúvidas! M. Guinot foi cantora, compositora de música ligeira, escritora e pianista.

Em 1984, então com 39 anos, ganhou o Festival RTP da Canção, com o belíssimo tema “Silêncio e Tanta Gente”, numa edição que ficou marcada pela recusa da artista em cantar em “playback”, solidarizando-se, deste modo, com os músicos em greve.

Na sua vida cívica, Maria Guinot destacou-se pela sua intervenção em acções condenatórias da agressão contra povos soberanos, contra a política de bancos privados de não admissão de mulheres, na luta pela despenalização do aborto e a participação na Frente para a Cultura.

Em 1986 compôs “Homenagem às Mães da Praça de Maio”, tema que integrou o álbum “Canções de Maio”, editado pela CGTP/IN. Cumpriram-se a 30 de Abril 41 anos desde que as Madres de la Plaza de Mayo saíram pela primeira vez à rua, reclamando saber o “destino” dos seus filhos, sob a sanguinária ditadura argentina de 76 a 83 do século passado.

Nessa 5ª feira eram apenas 14 mulheres, corajosas e abnegadas, não desistindo da sua luta, mesmo correndo grande perigo. Daí para cá, todas as 5ªas feiras, Buenos Aires assiste à concentração de argentinos, maioritariamente mulheres, procurando manter vivos na memória colectiva os 30 mil desaparecidos durante aqueles sete negros anos.

Uns dias antes do falecimento de M. Guinot morreu Gérard  Bloncourt, o fotojornalista que imortalizou a emigração portuguesa em França nas décadas de 60 e 70. Bloncourt fotografou os “bidonvilles” portugueses, denunciando as tristes condições de vida dos nossos concidadãos. Igualmente fez imagens da viagem clandestina, “a salto”, em que portugueses abalaram do País, em situação de grande risco e na maior vulnerabilidade. Respeito pela sua memória!

Quem passa pela vida deixando exemplos e marcas profundas, não morre nunca. Como Adriano Correia de Oliveira, Ary dos Santos, José Afonso, tão prematuramente arredados da nossa convivência, Maria Guinot permanecerá na memória dos que a amaram, não esquecendo o seu exemplo de luta pela justiça e por um Mundo mais fraterno e igualitário.

Fiquem bem, sejam felizes. Um grande abraço daqui.

*Silvina Queiroz, professora, escreve às quartas no LUX24.

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