Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

Julgo que foi Clara Ferreira Alves quem, numa crónica recente, afirmou que a Grande Literatura estava a perder terreno, nos nossos dias, para a Boa Filmografia, chamemos-lhe assim porque já não me recordo como lhe chamou, mas era esta a ideia.

Vinha isto a propósito, se bem recordo, da qualidade de muitas das séries e dos filmes que, sobretudo com produtoras e distribuidoras por subscrição como a Netflix ou a HBO, têm vindo a surgir e a ocupar não apenas o nosso tempo mas também os nossos ecrãs, todos, desde logo os que estão bem mais à mão do que a grande tela das salas de cinema.

Mais democrático, porque mais acessível e mais barato, é difícil hoje resistir à tentação de ver um filme, um documentário ou uma série histórica: há cada vez mais argumentos viciantes, actores irrepreensíveis e temas para todos, absolutamente todos, os gostos.

Tudo por um valor mensal aceitável, disponível até no telemóvel, para ver na cama, no sofá, nos transportes públicos, no quarto de banho ou até, já vi, com recurso a phones discretos, durante sessões públicas menos estimulantes.

Enquanto isso, obviamente, os livros continuam a chegar aos escaparates, uns melhores, outros piores, quase sempre caros para o nosso rendimento disponível e, o seu maior defeito, a exigirem-nos mais tempo e mais esforço para serem desfrutados e, muitas vezes, sem que haja à volta do leitor outro com quem partilhar o que se leu, o que se sentiu, o que se refletiu.

É triste mas é verdade: é mais fácil encontrar quem siga a mesma série ou tenha visto o mesmo filme – ou o vá ver depois de nos ouvir falar sobre ele e possa conversar connosco sobre o tema no dia seguinte – do que quem tenha lido o mesmo livro. Ler é por isso mais dispendioso, em tempo e/ou em dinheiro (pode ler-se de graça com os livros das bibliotecas mas é sempre preciso que as haja perto e que encontremos o tempo para lá ir), e mais solitário.

Dito isto, que estou a dizer? A vaticinar o fim do livro? Não, não caio na tentação de anunciar o fim dos tempos, sejam eles os do livro, do teatro ou da rádio, todos alvos de notícias de morte manifestamente exageradas ao longo dos anos.

Os livros permanecerão nas nossas vidas e nas vidas dos que nos seguirão, não tenho dúvidas. O que se retira, em conhecimento, amadurecimento, introspecção, humanidade, cultura, desenvolvimento pessoal e prazer, de um livro, não cabe nos filmes, em nenhum filme.

É o esforço que ler exige que se transforma em poder: o poder de pensar, imaginar, sonhar, escrever, crescer. Se ler é um acto solitário é porque escrever, na maioria dos casos, também o é. Um filme é sempre trabalho de equipa. E há muito menos mistério humano num colectivo do que dentro de um só cérebro, onde não há cedências, compromissos ou convenções sociais. Pode parecer mas não chega a ser um paradoxo.

Então, o que quero dizer com esta extensa lengalenga sobre livros e filmes? Que ler pode vir a criar novas divisões sociais ou, por outras palavras, continuar a fazê-lo, cada vez mais. Porque se os filmes são bons e entretidos e baratos e fáceis de consumir, só uns poucos, devidamente preparados e estimulados ou naturalmente inclinados a isso, vão ler.

E, com isso, ler tornar-se-á mais caro e mais elitista, e a tendência de ‘filmografar’ vai tomar conta de outras áreas, como a académica, como uma nova linguagem, mais adequada a este tempo mais instantâneo nos produtos, nos canais, nos consumidores e nos resultados.

A esperança? A minha é sobretudo a de que mais do que apenas uns poucos sentirão falta de tudo o que cabe num livro, do silêncio ao prazer solitário e ao espaço para a imaginação. Mas que ler é e será cada vez mais um acto de resistência – disso não tenho dúvidas.

PS – Sugestão de um livro (dará para uns dias valentes): «Longa pétala de mar», de Isabel Allende. Num registo muito diferente do habitual, Allende leva-nos a um tempo de guerra e refugiados que nos surge como estranhamente familiar na actualidade dos noticiários: só mudaram as datas e as geografias, os dramas permanecem. A ler para não perder a perspectiva e para não cair no erro de pseudo-superioridades culturais… e porque é muito bom.

Sugestão de um filme: Viver Duas Vezes (1 hora e 41 minutos mais outro tanto para digerir tudo de que o filme ‘fala’, das redes sociais (das suas vantagens e das suas mentiras) às relações familiares, passando pelos amores de infância e pelas escolhas que fazemos mas também pelas ‘novas’ profissões, como as de ‘coaching’. Um filme de María Rippol, com Óscar Martínez e Inma Cuesta, disponível na Netflix e muito, muito bonito ou, como já escreveram, ‘um drama disfarçado de comédia’, talvez porque na vida, excepção feita às grandes tragédias, há sempre espaço para sorrir.

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