Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Resposta: Para os seres que não produzem clorofila há vidas mais importantes que outras. A vida de uma pessoa não é tão importante como a de um cogumelo. A verdade é que precisamos de comer outras vidas para que a nossa continue.

Todas as vidas humanas importam? Claro que sim. Mas há alguma novidade nisso? Claro que não. Vidas negras importam? Claro que sim. Mas há alguma novidade nisso? Sim, é que alguém morrer com um joelho de um polícia enfiado no pescoço por uma nota falsa de 20 dólares leva a pensar que as vidas de pessoas negras não têm a mesma importância.

Mas vamos olhar para factos. Nos Estados Unidos, tanto a violência policial como a população prisional têm números muito mais altos que os restantes países ocidentais. Dos muitos números relacionados com isso algo entre 25% e 50% são negros, o que é uma percentagem sempre superior à sua percentagem na população: 13%. Mas e em relação ao crime? Uma percentagem superior a 13% dos crimes, incluindo homicídios, são cometidos por negros também.

Isso quer dizer que as pessoas por serem negras são mais violentas? Issoé que seria uma pergunta racista. Existe mais variabilidade genética em África do que no resto do mundo. E isso é bem visível numa das actividades em que a genética tem um fator mais determinante: o desporto.

Os quenianos, etíopes e eritreus dominam o atletismo de fundo há já algumas décadas. A seguir vêm alguns japoneses, europeus e norte-americanos. Não vem nenhum costa-marfinense ou liberiano. Há muitas diferenças entre uns e outros.

A cor de pele é definida pela genética, mas já há muito tempo que se sabe que os genes que ditam a cor de pele são uma ínfima parte do nosso código genético. Não faz sentido algum dizer que por causa da cor de pele alguém é mais inteligente, mais burro, mais calmo ou mais violento. Eu sei que parece estúpido eu estar a recordar isso, mas há muita gente que não está a par disso.

Então porque há mais crimes cometidos por negros? Porque existiram e existem pessoas que não leram o parágrafo acima e que pensam que a cor de pele é algo a ter em conta. Por essa razão a taxa de desemprego é mais alta para os negros, por essa razão os seus salários são mais baixos e a sua esperança de vida é inferior.

E se a esperança de vida é mais baixa, isso quer dizer que as suas vidas são menos importantes para a nossa sociedade. Com essa diferença de números obviamente as taxas de criminalidade são mais altas, é uma consequência da sua condição social.

Mesmo agora na Covid, o grupo BAME (Negros, asiáticos e minorias étnicas) foi o mais afetado, não porque o coronavírus é racista, mas porque trabalham nas linhas da frente e têm piores condições de vida.

Existe uma clara desigualdade de oportunidades baseada em traços físicos o que é inaceitável numa democracia. O problema é que nós, brancos, que vivemos numa maioria e não temos um obstáculo extra para ultrapassar, nem nos apercebemos o quão difícil é por vezes subir um degrau mais alto do que o alcance das nossas mãos.

Comecei a perceber melhor isso quando emigrei. Quando percebi que o meu sotaque ao telefone gerava por vezes antipatia quando ligava para o centro de saúde a marcar consulta. Ou quando no processo de obtenção de cidadania me colocavam pequenos obstáculos e me obrigavam a pagar um valor incrivelmente superior ao serviço que me estavam a prestar. Ou quando percebi que a grande maioria dos lugares de chefia nos locais onde trabalhei eram ocupados por ingleses, americanos ou irlandeses. Brancos.

Não posso dizer que é um degrau e que eu não seja um privilegiado. É uma rampinha de três centímetros de desnível, mas fez-me entender melhor o outro lado. Que quando era português e vivia em Portugal era tudo muito, mas mesmo muito fácil.

Mas não é fácil para todos e, por isso, só posso tentar ajudar para que todas as vidas um dia tenham a mesma importância.

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