Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Esta semana que passou, uma amiga teve uma segunda oportunidade quando um problema de saúde se resolveu a contento, depois de um período de medo que viveu e partilhou com os seus.

Julgo que todos chegamos ‘àquela idade’: a uma altura da vida em que temos amigos que passaram por momentos assim, ou somos nós os amigos que vêem um episódio difícil transformar-se numa epifania; uma idade em que já tivemos o nosso coração partido e já sofremos por quebrar o de alguém; uma idade em que constatamos que desistimos de alguns sonhos sobretudo porque os substituímos por outros, que agora fazem mais sentido; uma idade em que quase tudo se inverte e o que tinha toda a importância do mundo passa a secundário, e o que parecia irrelevante ganha contornos do ‘santo graal’ que todos procuramos, independentemente da idade: o sentido da vida. Da nossa.

Pequenina, geralmente rotineira, sem promessas de grandes obituários num futuro que, apesar dessa singeleza, desejamos longínquo. Claro que todos importamos e, idealmente, todos temos alguém que se importa connosco, ou que foi mais feliz por se ter cruzado, um dia, no nosso caminho.

Mas, excepções salvaguardadas, chegamos a uma idade em que fazemos as pazes com a consciência de que o mundo seria, em enorme medida, o mesmo, caso nunca tivéssemos existido ou deixássemos de ser vivos. Esta é uma espécie de epifania partilhada, que dispensa sustos no domínio da saúde e que abre as portas de um mundo diferente, onde a felicidade que passámos anos a perseguir é, enquanto conceito e enquanto força motriz, redensificada.

O mundo não depende de nós, não gira, afinal, à nossa volta, liberta-nos da obrigação de ser olímpicos: mais fortes, melhores, mais inteligentes, mais produtivos, mais, mais, mais.

A felicidade e o sentido da vida podem ser individuais – se é que o não são necessariamente – e assumir a redefinição desses conceitos torna-os mais palpáveis e, o que é talvez mais importante, mais alcançáveis.

Não sei se a vida da minha amiga vai mudar drasticamente, se vai dar mais importância às coisas simples e desvalorizar os pequenos grandes dramas que nos consomem no dia-a-dia. Não sei, sobretudo, se o fará de forma duradoura, passada a recordação vívida do susto.

Acontece-me o mesmo com a questão a pandemia, do confinamento e do distanciamento social, ou melhor, com as mudanças operadas: o aplauso colectivo aos profissionais de saúde e aos professores; o reconhecimento comunitário dos que nos recolhem o lixo, abastecem prateleiras de supermercado, conduzem camiões de mercadorias; a valorização do tempo em família, dos mais velhos, dos amigos… Não sei se vai durar.

Tenho mais fé na epifania da minha amiga do que na nossa enquanto sociedade e, talvez por isso, acredito que não a aguarde nenhuma recidiva. Já a nós…

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões ou sugestões?
Por favor fale connosco.
Publicidade

Todas as notícias e conteúdos no LUX24 são e continuarão a ser disponibilizadas gratuitamente, mas nunca como agora precisamos da sua ajuda para continuar a prestar o nosso serviço público.

Somos uma asbl – associação sem fins lucrativos – e não temos qualquer apoio estatal ou institucional, apesar do serviço público que diariamente fazemos em prol da comunidade portuguesa e lusófona residente no Luxemburgo, e já sentimos o efeito da redução da publicidade, que nos garante a manutenção do nosso jornal online.

A imprensa livre não existe nem sobrevive, sem o suporte activo dos seus leitores – sobretudo em épocas como esta, quando as receitas de publicidade se reduziram abruptamente, e nós continuamos a trabalhar a 100%.

Só lhe pedimos que esteja connosco nesta hora e nos possa ajudar com o seu donativo, seja ele de que valor for. Prometemos que continuaremos a ser a sua companhia de todas as horas.

Pode fazer o seu donativo por transferência bancária para a conta do LUX24:
IBAN: LU790250045896982000
Código BIC: BMECLULL

LUX24 asbl
#VaiFicarTudoBem

Publicidade