Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Não há nada de errado em trabalhar num café, num balcão, a fazer limpezas, numa caixa de supermercado. Absolutamente nada.

E é maravilhoso ver como consegues tirar tanto do trabalho que te ocupa os dias, aprendendo sempre, e tanto, sobre as pessoas, mais do que sobre os processos ou procedimentos que, inteligente e expedita como és, captas num ápice.

Mas sabes o que já é errado? É querer mais e diferente, sonhar mais e diferente, e não avançar. Eu sei que o dinheiro ao fim do mês é certo e te faz falta.

Eu sei que se fosses de uma família rica provavelmente nunca estarias nesta encruzilhada: estudar ou trabalhar. Que não é sequer bem uma encruzilhada, porque tens mesmo de trabalhar, apesar desses vinte e poucos anos tão miudinhos de rosto, tão frágeis de corpo e, no entanto, tão fortes e enérgicos e sorridentes.

Por outro lado, quem sabe, numa outra família talvez ainda não soubesses, nem eu, a massa de que és feita. E é do melhor, miúda. Olho para ti e podias ser minha filha – e eu seria (como sou, doutras crias mais novinhas) uma mãe orgulhosa.

Mas, como se fosses minha filha e por algum motivo eu não to pudesse dizer, gostaria que alguém o fizesse por mim, aqui vai: desafia-te, desassossega-te, corre riscos que agora é a idade certa para os correr.

Tens de trabalhar? Fá-lo de forma a que consigas continuar a estudar, não porque tem de ser mas porque, ambas sabemos, é isso que queres.

Depois, com canudo, é mais fácil partir, ver o que há lá fora, conhecer outras culturas, outras pessoas, outras formas de viver e também de trabalhar. Não é só porque tu mereces, J., é porque o mundo merece conhecer-te, a ti e à tua força de menina-mulher, tão generosa, tão espontânea, tão sedenta de aprender.

Não consigo olhar para ti e deixar de pensar que estás destinada a mudar o mundo para melhor. Não boicotes o teu destino, por favor.

Sabes? Vou ter saudades de te ver no sítio do costume mas vou ficar muito feliz no dia em que perguntar por ti e me disserem que foste, não atrás do teu sonho, mas atrás da realidade que saberás criar e que te garantirá – espero, desejo muito mesmo – um futuro mais amplo do que o que tens num emprego certinho mas sem perspetivas, sem margem para crescer.

Acredita em mim: hoje tens vinte e picos, amanhã acordas e tens 40, filhos para criar ou pais para cuidar, créditos para pagar e, não sendo impossível, é mais difícil e menos rentável o que conseguires investir em ti própria.

O tempo é agora, J. Não te acomodes, não te demores, não esperes pelas circunstâncias perfeitas: cria-as, serão feitas por ti e perfeitas para ti. Era só isto que queria dizer-te, talvez não valha grande coisa mas nunca se sabe quando um cisco, ou uma palavra, nos muda a vida: vai.

Podes sempre voltar, sabes? Por isso não tens nada a perder, excepto o risco de um dia olhares para trás e te perguntares por que é que não foste. Ficar é o mais fácil e o mais fácil não te chega, tu sabes.

Boa viagem, querida J.

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