Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve quinzenalmente às quartas no LUX24.

Os resultados dos últimos trabalhos científicos sobre a imunidade das populações que contraíram a Covid-19 mostram taxas de imunidade da ordem dos 5% a 7%. O trabalho com a amostra mais significativa foi realizado em Espanha a 61 mil habitantes, publicado a passada semana na revista científica Lancet.

Estes resultados a serem confirmados pelos restantes trabalhos que estão a ser realizados noutros pontos do globo, mostram que a solução da imunidade de grupo não funcionará. Pior, a existir uma vacina muito dificilmente esta poderá ser eficaz contra a propagação da Covid-19.

Não é a primeira vez que convivemos com vírus perigosos para os quais não conseguimos nem imunidade de grupo, nem vacina. No caso da SIDA não se conseguiu produzir uma vacina, mas conseguiu-se transformar uma doença mortal numa doença tendencialmente crónica, se aplicados atempadamente os devidos tratamentos aos pacientes.

O número de infetados com o vírus da SIDA em Portugal é extremamente elevado, cerca de 60 mil, ou seja, superior ao número de positivos da Covid-19. No caso da Covid, a solução mais viável poderá vir a ser do mesmo tipo da que foi encontrada para a SIDA.

Entretanto, para além da Covid-19, enfrentamos o início de uma crise económica global resultante do abrandamento das atividades económicas consideradas não essenciais, que já está a provocar falências e desemprego em massa.

As revindicações de injeção de fundos europeus na economia para evitar a recessão e a austeridade vão no bom sentido, mas nunca poderão atingir o propósito desejado se formos obrigados a confinar em permanência cidades, regiões e países onde se registem recrudescimentos de casos de Covid.

Precisamos de investir na investigação de combate à Covid-19 e de doenças infectocontagiosa ao mesmo nível que estamos a investir na salvação das economias para ambicionar erradicar ou controlar a doença, muito provavelmente sem vacinas e certamente sem imunidade de grupo.

Nos anos 60 do sec. XX, o Programa Apollo onde trabalharam 400 mil pessoas permitiu colocar 12 homens na superfície da Lua, com um foguetão notável com 111 metros de altura desenhado e construído em tempo record. Um dos aspetos ainda hoje mais impressionantes do Programa Apollo é a sua velocidade de implementação.

Desse programa resultaram inúmeras empresas, emprego e tecnologias que ainda hoje mexem com a nossa sociedade, que vão do GPS até ao bem-estar, saúde e segurança (dispositivos de diálise portáteis, equipamento de combate a incêndio, conservação de alimentos, etc.).

As nossas sociedades não podem ficar apáticas à espera de que companhias farmacêuticas façam um milagre e produzam uma vacina de eficiência duvidosa. É mais do que hora de lançarmos um projeto global de combate a esta doença envolvendo a comunidade científica mundial, com meios e financiamentos à altura da gravidade do problema.

Com muita clareza, este financiamento tem de ser da ordem dos milhares de milhões de euros, da ordem do que está a injetar nos bancos e nas economias, sob pena de andarmos a salvar economias e bancos à medida de que os surtos de Covid vão saltando de região em região ou de continente em continente. Este esforço tem de ser obrigatoriamente global, porque o SARS-CoV-2 não tem passaporte nem pára nas fronteiras.

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