Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve quinzenalmente às quartas no LUX24.

Gosto de futebol. Sigo os campeonatos e todos os anos tento assistir ao vivo a um jogo internacional do F.C. do Porto ou da seleção nacional. Tive o privilégio de assistir a partidas magníficas, como o memorável Portugal 3 Inglaterra 2 no Europeu da Holanda e Bélgica em 2000.

Mas sinceramente, sempre achei que há um excesso de futebol no espaço público português, nas conversas entre amigos, nos cafés e particularmente nas televisões é de um exagero patético. Quem viveu no estrangeiro percebe que ultrapassámos todos os limites da razoabilidade.

Este excesso serve de bloqueio a assuntos muito mais relevantes para a vida dos portugueses. Discutem-se menos os problemas do país quando há algo de supostamente relevante a acontecer no universo do futebol, como a mera aterragem de um treinador, como aconteceu com o notável corte da palavra de Santana Lopes na SIC em 2007 para transmitir a chegada de Mourinho ou muito recentemente com o regresso de Jorge Jesus.

Os programas de história, ciência, cultura, informação regional e das comunidades portuguesas são atirados para horários indecentes ou para canais de difusão muito limitada.

Esta pandemia também parou o futebol e pela primeira vez muitos portugueses foram confrontados com discussões diárias sobre assuntos de que não estavam habituados a dissertar, da saúde à ciência.

Nem sempre essas reflexões saíram de uma forma muito articulada porque a cultura científica dos portugueses não é famosa, mas não nos iludamos existem poucos países do mundo onde a cultura científica da população atinge o razoável.

Com o desconfinamento, o futebol voltou à televisão, mas claramente com menos força e não foi apenas pela ausência de público, em grande medida o confinamento funcionou com um período de desintoxicação futebolística e para parte da população aqueles que eram outrora heróis ou “extraterrestres” não passam agora de meros desportistas, valorizando-se outras profissões.

O silêncio futebolístico também destacou a fuga aos impostos dos “extraterrestres” em largos milhões de euros que poderiam ter sido aplicados neste período para cuidar dos portugueses.

A Covid-19 não acabou, continua a não ser certo que possa surgir alguma vacina eficaz. Mais do que nunca as populações precisam de conhecer o que realmente importa. Fazem falta programas televisivos de informação de fundo, debates e documentários sobre saúde e sobre ciência. Há muitas questões que estão no ar para os menos informados e é fundamental passar para horário nobre este tipo de programas.

Mas também a história e a cultura têm surgido numa série de debates que emergiram no espaço deixado livre pelo futebol. Grande parte da população percebeu pela primeira vez que há muito para ser aprofundado sobre a nossa história e a nossa cultura.

Esta semana a SIC deu um passo importante ao acabar com o modelo de programas de comentário de futebol com um perfil agressivo (tóxico segundo a direção da SIC). Mas neste particular o serviço público de televisão tem de ir mais longe e não apenas acabar com este tipo de programas, mas também com as longas entrevistas no final de banais treinos, diretos à entrada e saída de estádios (mesmo sem público) e fazer mais daquilo que deveriam fazer e transmitir mais ciência, saúde, história e cultura nas ondas públicas.

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