Este tem sido realmente um “annus horribilis”, trezentos e sessenta e seis dias dolorosos, muitas vezes assustadores. Lembro que as primeiras notícias da pandemia, na altura ainda com o estatuto de pré-epidemia, nos apanharam de surpresa no mês de Fevereiro mas logo as coisas se precipitaram.

Por aqui a última semana foi igualmente “horribilis”. Com a pandemia a mostrar algum abrandamento mas não tenho chegado a época das grandes gripes sazonais, o descanso ainda é uma miragem distante. O número de óbitos continua muito elevado e há dois dias morreu um conhecido meu por culpa da doença.

Quando as tragédias acontecem por perto, torna-se tudo muito mais presente e mais assombrador. Faleceu no dia do seu aniversário, uma ironia do destino, ironia que quando acontece acaba por abalar mesmo os menos emotivos.

Há noventa anos acontecia uma “coincidência” assim: morria a grande Florbela Espanca aos trinta e seis anos de idade, a 8 de Dezembro. Neste caso, foi ela a escolher a data e o momento, não resistindo aos seus sentimentos de profunda solidão e infelicidade. Há poucos dias o País comoveu-se com o desaparecimento prematuro e injusto de uma jovem promissora.

A comunicação social “ampliou” a tragédia, até num claro desrespeito pela dor da família e amigos, enquanto relativizou ou ignorou outras tragédias igualmente chocantes.

“Esqueceu”, por exemplo a horrível morte de um menino de treze anos, às mãos do exército israelita. Apenas porque estava com os seus, tentando impedir, sem armas de fogo, a ocupação ilegítima do seu território pátrio. Não souberam?! Completamente impossível! Onde estava o prestimoso senhor Cymerman? Distraído?

Há dois dias, o sr. Presidente da República desfez o tabu e assumiu a sua recandidatura ao cargo. Ah, que novidade, ninguém estava à espera! Escolheu um dia excelente para o anúncio, o dia em que era suposto estar-se na rua apenas para assuntos inadiáveis. Mas ele calculou bem o tempo, adiando até ao possível. Entretanto, estava no caminho o processo de recolha de assinaturas.

Quem tem nas mãos o controle dos instrumentos, não precisa ralar-me muito! E foi “lindo” vê-lo no meio dos repórteres, todos de máscara como manda o mais elementar bom senso, e ele de cara descoberta para não “prejudicar” os directos e as fotos!

Esteve bem, sr. Presidente, esteve bem? Na mesma segunda-feira, a minha querida amiguinha, a mãe do menino Diogo de quem já vos falei, passou o seu primeiro aniversário sem ele. Outra família destroçada pela partida injusta de um dos seus, ainda tão criança. O Diogo tinha dezasseis anos e partiu depois de indizível sofrimento. Também este tremendamente injusto.

Ontem fui surpreendida pela morte não esperada do João Ricardo Cruz, um ser excepcional. Um homem íntegro e sempre afável e um artista tão talentoso! Quero esquecer esta semana, quero esquecê-la!

Fiquem bem. Que tudo vos corra de feição.

Aquele abraço sempre fraterno. SQ

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