Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

No primeiro semestre do estranho ano de 2020 nasceram mais 11 crianças do que em igual período de 2019. Ao todo, foram 42.149 os bebés que vieram ao mundo em Portugal e, apesar de o número poder parecer pequeno, é o maior desde 2017.

São mais 11 crianças, concebidas antes da Pandemia que nos virou a vida do avesso e sobre cujos ombros recairá, também, a tarefa de, mais do que sobreviver nestes e a estes novos tempos, ajudar a construir um país, um mundo, melhor.

E não, não é utopia nem optimismo pueril: é mesmo esse o desígnio humano, independentemente de se cumprir, independentemente dos reveses que o processo sofra, uma e outra vez e, com ele, muitos de nós, talvez até cada um de nós, mesmos os mais privilegiados, aqueles a quem as crises – sanitárias, económicas, ambientais ou outras – atingem com menos força ou, pior, até reforçam.

Não é à toa que, em países com fossos sociais sem fundo à vista, os mais ricos vivem no fausto e com medo, cercados por arame farpado e com receio até dos guarda-costas. É melhor do que morrer de fome ou viver no meio do lixo? Claro que sim, mas continua a não ser o ideal, continua a ficar aquém do equilíbrio e da paz, incluindo a interior, que todos procuram.

Estes 11 magníficos, que podiam compor uma equipa de futebol, são uma nova esperança para um país que precisa desesperadamente dela, bem mais do que de campeonatos, troféus ou claques. Eles e os restantes 42.138, e todos os que virão, e os que já cá estavam em 2019 e são ainda pequeninos, suficientemente pequeninos para fazer diferente, aprender diferente, defender diferente, ser diferente.

Porque, como está, está visto que não resulta e, no entanto, é exactamente como está que temos de os criar melhor, mais fortes, mais orientados para a felicidade do que para a competição, para o nós do que para o eu. Essa é a verdadeira vacina, a que ajudará a enfrentar todas as pandemias que vierem.

Transformar bebés em adultos felizes e capazes é um trabalho de equipa daqueles: exige que as famílias tenham condições e estrutura para lhes dar amor, cuidado, alimentação, educação, segurança e saúde em doses iguais.

Esse é o trabalho da política – o que significa que é o nosso, sobretudo na hora de ir votar mas também no dia-a-dia, nas diferentes manifestações de cidadania ao nosso dispor – e que tanto custaram a conquistar. É, isto anda mesmo tudo ligado. Ligado à Europa e à União Europeia que tem de auto-vigiar-se para não se tornar um fardo onde devia ser alavanca, mera semântica onde devia ser conteúdo.

Ligado aos países em desenvolvimento, porque o delicado equilíbrio da economia mundial depende da definição de um mínimo denominador comum nos Direitos humanos e laborais, sob pena de um capitalismo selvagem que ferirá quase todos para benefício de um punhado cada vez mais cerrado.

Enfim, a teia não tem fim, e cada fino fio que se quebre vai impactar a vida de, adivinhem?, cada um destes bebés, e dos que eles vierem a ter e por aí fora, até ao fim dos tempos…

«Quem planta árvores, sob cuja sombra sabe que nunca haverá de sentar-se, começou a entender o sentido da vida», li, por aí, num pensamento sem autoria atribuída mas que me enterneceu. É muito isto, não é?

Sejam bem-vindos, bebés, que o vosso futuro esteja livre de violência, pobreza, racismo, preconceito e, já agora, corrupção, fraudes, vírus e máscaras. Eu sei, se fosse uma fada-madrinha, daquelas dos contos de encantar, os meus votos de nascimento seriam no mínimo estranhos. Mas o mundo seria bem mais recomendável, certo?

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