Rita Limede, psicóloga e produtora de eventos musicais, escreve semanalmente aos no LUX24.

Esta semana foi notícia o comportamento reprovável de uma das novas “celebridades” do youtube/instagram. A Youtuber norte-americana Myka Stauffer revelou que devolveu o seu filho adoptivo, porque não estava a conseguir lidar com os desafios inerentes à educação e ao dia-a-dia de uma criança com Autismo.

Myka ficou famosa no Youtube quando há três anos atrás documentou o processo de adoção e a luta para conseguir trazer o seu filho da China para os EUA, sendo que a criança tem necessidades educativas especiais.

Nos três anos que se seguiram, os videos do canal do Youtube acompanharam a jornada da adaptação da criança à sua família, o seu diagnóstico de Autismo e as lutas diárias. Myka foi ganhando notoriadade, patrocínios e apoio de marcas e foi vista como uma defensora dos direitos das crianças com deficiência.

No entanto, após três anos de luta e de ter mostrado ao público uma realidade distorcida do que era o seu dia-a-dia, deu a criança a outra família, pois já não se sentia capaz de cuidar dela.

Esta decisão polémica veio levantar muitas questões relativamente ao tratamento que muitas crianças com necessidades educativas especiais têm, responsabilidades parentais e a ética por detrás das agências de adopção no estrangeiro e a exploração da imagem e privacidade das crianças em troca de fama no Youtube e patrocínios.

Vamos por partes – uma criança, mesmo com necessidades educativas especiais, em especial dentro do espectro do autismo, precisa de estabilidade a todos os níveis, em particular a nível emocional. Ao estar três anos com a mesma família, é tempo mais que suficiente para estabelecer uma vinculação à família.

Este abandono vai ter consequências a curto (e a longo) prazo na vida desta criança, em especial a nível da sua autorregulação emocional e comportamental, algo que já é difícil em condições “normais” para uma criança com estas características.

Vem também levantar questões éticas sobre a exploração das crianças e dos “dramas” familiares em troca de fama e patrocínio. Ao expor desta forma a vida desta criança em troca de views, que mensagem é que estamos a mandar ao mundo? Será que o Youtube e demais plataformas devem começar a limitar este tipo de exposição familiar e exploração infantil?

Myka Stauffer e o filho adoptivo Huxley – SCREENSHOT YOUTUBE – LUX24

Agora que estamos em desconfinamento, está na hora de voltar a trazer para a ribalta discussões sobre muitos outros temas que têm ficado pendentes nos últimos tempos. O abandono infantil, em especial de crianças adoptadas, não tem recebido a atenção que merece, e o uso destas plataformas para exploração da imagem familiar em troca de lucro muito menos.

É necessário que haja uma discussão aberta sobre estes tópicos e que se tomem medidas de proteção das crianças. É também importante que haja uma voz activa de defesa das crianças com necessidades educativas especiais, que se pinte um quadro realista do que é cuidar e educar estas crianças, que se veja o lado bom e mal desta luta – mas pelas razões certas.

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