Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados

A Dinamarca já tinha fechado as fronteiras a quem vem de Portugal, a Espanha adiou a reabertura mas a grande revolta popular só ocorreu quando o Reino Unido não colocou Portugal nos países que podem ser visitados sem serem necessárias duas semanas de quarentena.

Fico muito agradecido ao povo Português, Dinamarca e Espanha não afectam em nada a minha vida, mas esta decisão do Reino Unido já me está a dar bastantes dores de cabeça. Não era preciso tanta preocupação comigo.

Só tenho pena por voltarem aqueles argumentos de nacionalismo saloio que volta e meia surgem quando o nosso país tem uma derrota a nível internacional, seja por o Abel Xavier defender uma bola com a mão ou por a Fitch colocar a dívida pública portuguesa num rating de Lixo.

As reações podem ter formas muito distintas. Pode ser o ataque direto ao adversário (“Aqueles bifes são uns bêbados e não são bem-vindos”), pode ser o choradinho (“Quando precisaram do nosso enfermeiro para salvar o primeiro-ministro vieram cá buscá-lo, agora que nós é que precisamos deles não querem saber”) ou a teoria da conspiração (“Pois, a British Airways e a Ibéria são a mesma empresa e, por isso, eles querem é que os turistas vão todos para Espanha”). Só faltou mesmo a referência Histórica, que seria bem mais engraçada (“Só fizeram connosco aquela aliança em 1386 porque sabiam que agora podiam criar esta quarentena e nós sem poder fazer nada”).

Como referi, esta situação prejudica-me imenso pessoalmente e considero esta ideia da quarentena muito estúpida, tendo em conta que quando foi decidida o Reino Unido era de longe o país com mais casos da Europa e o mais atrasado em termos de recuperação. Mas, ao contrário do que muitos portugueses podem pensar, esta decisão não foi tomada por Portugal ser um ódio especial dos britânicos, até porque há outros 140 países que ficaram fora da lista.

Portugal não é um país especial para o Reino Unido. É um país singular, como todos os outros, um dos principais destinos turísticos, mas as relações luso-britânicas nunca foram algo que abrisse um telejornal desde que cheguei aqui há oito anos.

É normal, o que é que nós sabemos da Eslováquia, da Croácia ou da Dinamarca? Não sabemos o nome dos seus chefes de estado, temos uma ideia genérica ou lembramo-nos de uma viagem que lá fizemos e as personalidades que melhor conhecemos são jogadores de futebol. É exatamente o mesmo que se passa no Reino Unido em relação a Portugal. E não há mal nenhum nisso.

Portugal ficou de fora devido a critérios, que não foram publicados, mas que estão relacionados com a situação atual na reação à pandemia. Já escrevi sobre péssima forma como o governo britânico lidou com a pandemia levando à morte de provavelmente 60.000 pessoas. Contrasta com o que aconteceu em Portugal, onde o governo conseguiu ter a situação controlada e ter um número de mortes inferior a 2.000. Mesmo tendo em conta que o Reino Unido tenha seis vezes mais habitantes, não há qualquer comparação: Portugal ficou muito melhor na fotografia.

E se penso que o nosso governo, presidente e até grande parte da oposição têm bastante mérito, salvando milhares de pessoas, a forma como o desconfinamento está a ser feito deve-se também a quem governa o país.

Portugal tem neste momento um número de casos diagnosticados por 100 mil habitantes muito alto, superior ao Reino Unido e apenas superado pela Suécia na Europa. Pior ainda, o número de casos tem subido (de uma forma ligeira, é certo) desde que a quarentena acabou. E foram estes os principais indicadores que fizeram com que o governo britânico tomasse esta decisão.

Pode-se criticar a sua dimensão e se devem ser relevantes, mas é um facto que os números de Portugal nesta altura não são os melhores quando comparados com os países incluidos na lista britânica.

Apesar de tudo, penso que a situação está relativamente controlada, 300 ou 400 casos por dia podem dar origem a 10 mortes diárias, no máximo, o que sendo todas elas tragédias pessoais, significaria um número total de mortes pela Covid 19 de cerca de 3 ou 4 mil no final do ano (já aqui disse que o Reino Unido já está perto das 60.000, não já?).

Há diversos factores para estes números negativos, alguns dificilmente controláveis: o facto de termos 10 milhões de habitantes torna mais difícil competir com Espanha ou Itália em termos de infectados por cem mil habitantes ou o número de testes que fazemos pode originar a deteção de mais casos que outros países. Mas há outros fatores que poderiam ter sido controlados.

Talvez para salvar a economia a quarentena tenha terminado cedo demais, uma ou duas semanas seriam suficientes para o número de casos baixar ainda mais e talvez fosse suficiente para que mesmo com a ligeira subida atual os números ficassem abaixo dos critérios que alguns países usam para definir quarentenas.

Aquela necessidade de fazer uma manifestação no 1º de Maio também terá acelerado o final da quarentena? E a reação das pessoas a essa manifestação, descontraindo mais facilmente e facilitando quando não deviam? E a lentidão a reagir a focos da doença em alguns concelhos tornou o problema ainda maior? Há um medo de voltar a fechar cidades ou fábricas, e isso pode estar a ajudar à propagação.

Aqui no Reino Unido as principais medidas ainda estavam em vigor e já Leicester tinha dado um passo atrás e entrado em nova quarentena. Outros factores podem estar relacionados com questões que não dependem tanto da governação, como o trabalho remoto mas também não existiu uma indicação concreta de que quem pode trabalhar de casa deve continuar a trabalhar de casa, tal como acontece em muitos outros países.

Todos sabemos que a cultura empresarial em Portugal é muito mais baseada na desconfiança do que na confiança e há hoje muitas pessoas que regressaram ao escritório quando podiam estar a fazer o mesmo a partir de casa.

Não penso que a situação esteja descontrolada e que os riscos de uma tragédia devido à doença sejam grandes mas a pressa de evitar uma catástrofe económica e a inércia de reagir criaram um problema económico ainda maior.

Mais de 2 milhões de britânicos passam férias em Portugal. Se cada um gastar mil euros são mais de 2 mil milhões de euros que são desviados para Benidorm e Torremolinos. O Algarve tem menos de 500.000 habitantes e é o principal destino de todos estes britânicos. A dimensão da perda é assustadora.

Posso sentir na minha pele o inconveniente desta quarentena no regresso de Portugal mas estou muito mais preocupado com o que vai acontecer nos próximos meses a milhares de pessoas

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