Por um dia pensou-se que o governo iria obrigar as pessoas a utilizar a app Stayaway Covid numa tentativa de controlar a proliferação de infeções pelo coronavírus.

Esta obrigação fez sair do armário uma legião de anarquistas preocupados com o facto do Estado nos obrigar a usar uma aplicação no telemóvel e de poderem existir problemas de privacidade pelo seu uso.

Vamos conhecer o amigo Ernesto (nome fictício) que esta semana esteve muito revoltado com a nova medida do governo. ”O Estado obrigar-nos a fazer uma coisa? Como é que isso é possível?” disse ele enquanto via a notícia numa estação de televisão subsidiada pela Contribuição Audiovisual que Ernesto paga obrigatoriamente na sua conta da eletricidade.

Quando viu aquela notícia, interrompeu o preenchimento da declaração do IVA que tem de entregar até ao fim do mês e foi buscar o seu telemóvel.

Ernesto utiliza um IPhone da Apple, onde só é permitido o sistema operativo iOS, abriu a App Store, única plataforma que permite instalar e desinstalar aplicações no seu telemóvel, e apagou a Stayaway Covid.

Só para mostrar que ninguém o obriga a nada e que é uma pessoa que tem muito cuidado com a sua privacidade. Assim a Apple ficou a saber que Ernesto desinstalou aquela app no seu dispositivo às 20:15:23.543 do dia 16/10/2020 no fuso horário GMT+1. “É bom que eles saibam disto!” pensou Ernesto.

Aproveitou para fazer um screenshot do momento em que apagou mas ao mesmo tempo recebeu uma notificação da mensagem que a sua mulher lhe tinha mandado no Whatsapp.

Como não quis repetir o processo, pensou: “Que se lixe, vai mesmo assim” e abriu a aplicação Facebook para publicar o screenshot com a aplicação apagada, o número de telefone da mulher e a lista de compras para fazer no Pingo Doce da sua rua.

“Vou pôr este post público como todos os outros. Todas as pessoas do mundo devem apagar esta aplicação. Vou encher isto de hashtags”.

E assim, Ernesto escreveu “VERGONHA! A MIM NÃO ME OBRIGão NADA! JÁ APAGUEI. ESTA AP É UM PERIGO PARA A NOÇA PRIVASSIDADE!!!” e carregou no botão de publicar.

A mensagem foi enviada para os servidores do Facebook na Califórnia, tendo também ficado guardada em Dublin juntamente com as coordenadas geográficas de sua casa. Como era um post público e com a hashtag #stawaycovid, Gurudutt Pisharody, que vive em Cochim, no estado de Kerala, Índia, recebeu uma notificação com a mensagem de Ernesto e ficou revoltado por alguém ter publicado um uma lista de compras que incluía carne de vaca.

Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Por essa razão partilhou na página de vegans indianos que administra e que tem 83 milhões de seguidores em todo o sub-continente indiano. Rapidamente 83 milhões de pessoas acederam ao perfil de Ernesto no Facebook e ficaram a conhecê-lo bem como a sua mulher (incluindo o número de telefone), as suas duas filhas e a sua chinchila.
Ernesto ficou assim mais aliviado.

“O Facebook é espetacular”, pensou ele (porque se tivesse escrito dava erros) “ao contrário do que acontece no meu país, aqui tenho liberdade de expressão”. Era um regresso às redes sociais, já que recentemente tinha estado suspenso por causa de uma publicação que violava as normas do Facebook.

De repente recebeu um toque da mulher, que não podia ligar-lhe porque não tinha saldo no telemóvel. Ernesto ligou-lhe de volta, e pelos vistos, a sua esposa estava revoltada porque tinha recebido imensas mensagens de indianas a dizer que conheciam o seu marido. Uma delas até disse que tinha almoçado vegetariano com ele no dia anterior.

Ernesto tinha um álibi, por isso abriu o Google Maps e foi à sua timeline onde era possível ver o registo de todos os seus movimentos desde 2012, todos armazenados em servidores na Califórnia. E assim tirou um screenshot do dia anterior, mostrando que tinha ido buscar a sua filha mais nova ao infantário às 13:01:23, ido almoçar ao McDonald’s onde usou a aplicação McLovers que regista todas as refeições que faz nessa cadeia de restaurantes e levado a filha ao ballet às 15:07:33 (também 7 minutos de atraso não é assim tanto).

O pior é que a mulher de Ernesto achava que ele tinha manipulado a imagem e desligou-lhe o telemóvel na cara, ficando essa chamada registada em servidores franceses da empresa de telecomunicações.

Ernesto, com medo que o seu casamento ficasse em perigo, pegou no carro para ir falar pessoalmente com a sua mulher e tentou chegar o mais depressa possível ao emprego dela. Sempre a cumprir os limites de velocidade pois sabia que a polícia tinha radares no caminho, recebeu uma notificação da aplicação Waze a dizer que estava muito trânsito pelo seu percurso habitual. “Fascinante esta aplicação, recolhem os dados de todos os telemóveis que usam a app e conseguem ver o trânsito em todas as ruas”, murmurou Ernesto.

O problema é que não conhecia muito bem o caminho e não se apercebeu de uma placa de sentido obrigatório para a direita. Seguiu em frente, entrando em contra-mão numa auto-estrada e chocou frontalmente com um camião Volvo.

Felizmente é obrigatório os camiões levarem tacómetros e assim o camionista foi ilibado de qualquer responsabilidade pelo acidente fatal.

É que, por vezes, faz sentido que existam leis e obrigações.

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