Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

“Black lives matter”- tem sido o slogan adoptado e presente nas mais diversas iniciativas, nomeadamente desportivas, por todo o Mundo.

Sim: as vidas da população negra ou mestiça importam, importam tanto como as vidas das pessoas de qualquer etnia, mas não tem sido esse o valor humano mais acarinhado ao longo da nossa história enquanto gente.

As situações cruéis e miseráveis de que toda a História está recheada, aconteceram em grande parte das vezes por força do preconceito, uma erva daninha que prospera e cresce em qualquer terreno.

O preconceito matou Martin Luther King, matou Abraham Lincoln, matou George Floyd e Bruno Candé.

Este um português como nós, vivendo em Portugal, este País que se diz “de brandos costumes”. Bem pode apregoar o “tal” que não se tratou de um crime racista, contrariando até as declarações da própria família do jovem assassinado, vítima de insultos preconceituosos, criminosos, por parte do energúmeno que viria a tirar-lhe a vida.

Quero acreditar, acredito mesmo, que Portugal não seja uma terra estruturalmente racista mas vejo com grande preocupação como facilmente acontecem “tiradas” de índole racista nos mais diferentes contextos e por parte de quem muitas vezes não se espera. A brincar, a brincar, descobrem-se facetas reprováveis. Mas não é só o preconceito étnico que causa desequilíbrios e sofrimento.

Outros, de outras índoles, provocam igualmente estragos consideráveis nas suas vítimas. Não falo de “apenas”morte física mas de morte anímica, espiritual. Todos sabemos como um comentário rancoroso pode magoar e uma pessoa sujeita com relativa frequência ao mesmo tipo de observações e “deixas” preconceituosas, verá muito facilmente a sua autoestima fragilizada, perdendo a confiança nas suas próprias capacidades, no seu Eu integral.

De tanto se ouvir um coisa, repetida ou insinuada até à exaustação, por força do preconceito latente, tende-se a crer na sua autenticidade. Esta é uma verdade inquestionável e tão dolorosa!

Quando o preconceito redunda em ódio, por força de motivações ideológicas, por força do egoísmo levado aos seus máximos exponentes, por força da ganância furiosa que não admite se não o seu próprio bem estar e os da sua “roda”, está encontrado o cocktail explosivo que imprisionou centenas, assassinou e estropiou para sempre muitos outros nossos concidadãos, que se atreveram a opor-se a esse estado de coisas.

Esta é a estória das prisões políticas em Portugal, o tal pais “de brandos costumes”. Na esfera do quotidiano da nossa época, encontramos o mesmo cocktail, modificado, mas sempre exacerbadamente cruel no rosto do bullying, exercido nos campos da escola, do trabalho, da família. E como é difícil fugir à sua violência surda!

O preconceito impede o crescimento pessoal das suas vítimas, impede que sejam felizes e confiantes, perturba uma vivência harmoniosa e produtiva. Mata por dentro, quando não aniquila de todo.

Implacável se tem manifestado o preconceito político nas últimas semanas e mais não digo porque “ para bom entendedor, meia palavra basta” e sei que me compreendem.

Erradicar toda a manifestação de preconceito das nossas sociedades é um imperativo para um Futuro de paz e sã convivência, para um Futuro de avanço e progresso, no qual todos se sintam parte e parte importante, imprescindível.

Quase a chegarmos ao Inverno, aproveitemos o que a estação bonita e amiga ainda tem para nos oferecer. Tenhamos cautelas com o que aí está e aí vem, deixando sempre lugar à esperança. Refutemos a preocupação paralisadora.

Cuidem-se. Sejam alegres, optimistas e cuidadores dos outros que vos rodeiam e são a vossa âncora de vida.

Um forte abraço enviado deste pedacinho belo a que chamamos nosso. SQ

Publicidade
Falhas, erros, imprecisões ou sugestões?
Por favor fale connosco.
Publicidade

Todas as notícias e conteúdos no LUX24 são e continuarão a ser disponibilizadas gratuitamente, mas nunca como agora precisamos da sua ajuda para continuar a prestar o nosso serviço público.

Somos uma asbl – associação sem fins lucrativos – e não temos qualquer apoio estatal ou institucional, apesar do serviço público que diariamente fazemos em prol da comunidade portuguesa e lusófona residente no Luxemburgo, e já sentimos o efeito da redução da publicidade, que nos garante a manutenção do nosso jornal online.

A imprensa livre não existe nem sobrevive, sem o suporte activo dos seus leitores – sobretudo em épocas como esta, quando as receitas de publicidade se reduziram abruptamente, e nós continuamos a trabalhar a 100%.

Só lhe pedimos que esteja connosco nesta hora e nos possa ajudar com o seu donativo, seja ele de que valor for. Prometemos que continuaremos a ser a sua companhia de todas as horas.

Pode fazer o seu donativo por transferência bancária para a conta do LUX24:
IBAN: LU790250045896982000
Código BIC: BMECLULL

LUX24 asbl
#VaiFicarTudoBem

Publicidade