Manifestantes durante protesto contra a morte de ator Bruno Candé e vítimas do racismo, organizada pela ativista A Preta Aly, com apoio do Núcleo Antifascista do Porto, da Frente Unitária Antifascista e de independentes, Porto, 1 de agosto de 2020. Bruno Candé, de 39 anos, foi baleado em 25 de julho por outro homem, de 76 anos, em Moscavide, no concelho de Loures, distrito de Lisboa. Em comunicado divulgado no mesmo dia, a família disse que o ator “foi alvejado à queima-roupa” e que o suspeito da morte de Bruno Candé já o tinha “ameaçado de morte três dias antes, proferindo vários insultos racistas”. MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA
Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

“Black lives matter”- tem sido o slogan adoptado e presente nas mais diversas iniciativas, nomeadamente desportivas, por todo o Mundo.

Sim: as vidas da população negra ou mestiça importam, importam tanto como as vidas das pessoas de qualquer etnia, mas não tem sido esse o valor humano mais acarinhado ao longo da nossa história enquanto gente.

As situações cruéis e miseráveis de que toda a História está recheada, aconteceram em grande parte das vezes por força do preconceito, uma erva daninha que prospera e cresce em qualquer terreno.

O preconceito matou Martin Luther King, matou Abraham Lincoln, matou George Floyd e Bruno Candé.

Este um português como nós, vivendo em Portugal, este País que se diz “de brandos costumes”. Bem pode apregoar o “tal” que não se tratou de um crime racista, contrariando até as declarações da própria família do jovem assassinado, vítima de insultos preconceituosos, criminosos, por parte do energúmeno que viria a tirar-lhe a vida.

Quero acreditar, acredito mesmo, que Portugal não seja uma terra estruturalmente racista mas vejo com grande preocupação como facilmente acontecem “tiradas” de índole racista nos mais diferentes contextos e por parte de quem muitas vezes não se espera. A brincar, a brincar, descobrem-se facetas reprováveis. Mas não é só o preconceito étnico que causa desequilíbrios e sofrimento.

Outros, de outras índoles, provocam igualmente estragos consideráveis nas suas vítimas. Não falo de “apenas”morte física mas de morte anímica, espiritual. Todos sabemos como um comentário rancoroso pode magoar e uma pessoa sujeita com relativa frequência ao mesmo tipo de observações e “deixas” preconceituosas, verá muito facilmente a sua autoestima fragilizada, perdendo a confiança nas suas próprias capacidades, no seu Eu integral.

De tanto se ouvir um coisa, repetida ou insinuada até à exaustação, por força do preconceito latente, tende-se a crer na sua autenticidade. Esta é uma verdade inquestionável e tão dolorosa!

Quando o preconceito redunda em ódio, por força de motivações ideológicas, por força do egoísmo levado aos seus máximos exponentes, por força da ganância furiosa que não admite se não o seu próprio bem estar e os da sua “roda”, está encontrado o cocktail explosivo que imprisionou centenas, assassinou e estropiou para sempre muitos outros nossos concidadãos, que se atreveram a opor-se a esse estado de coisas.

Esta é a estória das prisões políticas em Portugal, o tal pais “de brandos costumes”. Na esfera do quotidiano da nossa época, encontramos o mesmo cocktail, modificado, mas sempre exacerbadamente cruel no rosto do bullying, exercido nos campos da escola, do trabalho, da família. E como é difícil fugir à sua violência surda!

O preconceito impede o crescimento pessoal das suas vítimas, impede que sejam felizes e confiantes, perturba uma vivência harmoniosa e produtiva. Mata por dentro, quando não aniquila de todo.

Implacável se tem manifestado o preconceito político nas últimas semanas e mais não digo porque “ para bom entendedor, meia palavra basta” e sei que me compreendem.

Erradicar toda a manifestação de preconceito das nossas sociedades é um imperativo para um Futuro de paz e sã convivência, para um Futuro de avanço e progresso, no qual todos se sintam parte e parte importante, imprescindível.

Quase a chegarmos ao Inverno, aproveitemos o que a estação bonita e amiga ainda tem para nos oferecer. Tenhamos cautelas com o que aí está e aí vem, deixando sempre lugar à esperança. Refutemos a preocupação paralisadora.

Cuidem-se. Sejam alegres, optimistas e cuidadores dos outros que vos rodeiam e são a vossa âncora de vida.

Um forte abraço enviado deste pedacinho belo a que chamamos nosso. SQ

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