O deputado eleito pelo partido Chega! (CH), André Ventura (2-D), durante a primeira sessão plenária da XIV legislatura na Assembleia da República, em Lisboa, 25 de outubro de 2019. A Assembleia da República (AR) saída das legislativas de 06 de outubro tem três partidos que se estreiam no hemiciclo de São Bento, o Chega (Ch), da extrema-direita (1,29%), a Iniciativa Liberal (IL) (1,29%), Livre (L), de esquerda (1,09%), e com um deputado cada. MIGUEL A. LOPES/LUSA
Rui Martins, activista e dirigente associativo, escreve semanalmente aos domingos no LUX24.

Alguns continuam a acreditar que o tipo de temperamento luso com uma inclinação quase patológica para a moderação, um pavor longamente condicionado por séculos de Inquisição e, depois, por décadas de Polícia Política e uma passividade coletiva que por vezes beira a anomia (estado de falta de objetivos e regras e de perda de identidade colectiva) são as três vias pelas quais Portugal está definitivamente protegido das derivadas autoritárias hoje prosperam na Europa.

Nada mais equívoco: a História não funciona assim e nenhuma Estrutura é permanente sendo a mutação a regra e a transformação de estrutura em estrutura a regra em permanente execução. É assim absolutamente certo que, cedo ou tarde, este tão gabado “excepcionalismo luso” que tem afastado a Extrema Direita do sistema político parlamentar tem os dias contados.

E aliás este processo de desvio para a extrema direita está a acontecer neste preciso momento com a – aparentemente estranha – transferência de votos do PCP para o Chega e a – mais previsível – movimentação de eleitores do CDS (mais) e do PSD (menos) para o Chega.

Embora o Chega seja, hoje, mais um partido “populista de direita” que um partido de extrema direita clássico (racista, xenófobo e anti-democracia) o seu tipo de discurso ocupa as áreas que em Portugal estavam tradicionalmente preenchidas pelo PNR e por outros epifenómenos que nunca alcançaram o estatuto de “partido político” e por isso é possível classificar o Chega como sendo de “extrema direita”.

É com efeito através do Chega que o sistema político português vai (in)voluir até ao estado em que hoje encontramos a maior parte dos países europeus com partidos de extrema direita estando apenas Malta, Irlanda e Luxemburgo sem representação parlamentar da extrema direita e encontrando-se mesmo hoje o Vox, na vizinha Espanha, como o quinto partido mais votado e sendo mesmo poder em países como a Polónia, Hungria e República Checa ou em coligação, na Áustria, Letónia, Eslováquia e Bulgária.

O processo de crescimento da extrema direita em Portugal foi, paradoxalmente, alimentado pela entrada do Parlamento de 3 novos partidos nas últimas eleições (Livre, IL e Chega) o que lhes garante um eco mediático que não existia ainda de alcançarem o palco parlamentar: a partir deste momento (como prova o “fenómeno PAN”) têm todas as condições para crescer (exceptuando o Livre que com a deputada Joacine cometeu um grave erro de casting) e neste caso vão crescer, como é tradição em Portugal, para o eleitorado do CDS e do PSD não para a abstenção.

Este “desvio para a extrema direita” vai colocar em risco a estabilidade do sistema, pela primeira vez em mais de 40 anos de democracia e simultaneamente a solução da “Geringonça” que provou ao eleitorado que é possível ao PS governar sem ter que ser maioria vai reforçar a votação potencial no Bloco e nos partidos à sua extrema esquerda aumentando – em tese – as possibilidades de novas entradas no Parlamento e reduzindo as de o PS conseguir novas maiorias parlamentares. Vivemos tempos interessantes… Infelizmente nem sempre pelas melhores razões.

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