Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Marcus Rashford, jogador do Manchester United, quinto classificado da Premier League, criou uma campanha que permitiu que os alunos que ficaram afastados da escola durante o confinamento pudessem receber em casa as refeições que teriam na escola.

Apesar de ser uma das maiores economias do mundo, a malnutrição é um problema do Reino Unido e muitas vezes são as cantinas das escolas a assegurar refeições a muitas crianças de famílias carenciadas.

Na semana passada, o governo de Boris Johnson decidiu acabar com essas refeições escolares durante as férias grandes o que, numa altura em que muitos perderam o emprego, iria afectar a alimentação de cerca de um milhão de crianças durante o verão.

Marcus Rashford, um dos melhores jogadores ingleses da atualidade passou por dificuldades e o que comia na cantina da escola foi fundamental para o seu crescimento. E como não se esqueceu de uma realidade que não aconteceu há muito tempo (ele tem 22 anos), não se calou nas redes sociais criando uma nova campanha que foi fundamental para que o governo alterasse a sua decisão.

Há quem lhe chame o novo líder da oposição, mas uma vez mais fica demonstrado que “vidas negras importam” e que, ao contrário do que dizem alguns políticos portugueses, os futebolistas não só têm o direito a falar de política como podem intervir e criar uma sociedade melhor.

Em Portugal não é comum os jogadores falarem de política, geralmente são obrigados a dizer “limitei-me a seguir as instruções do mister”, “se a proposta for boa para mim e para o clube poderemos conversar” ou “o importante é a vitória do clube e apenas estou focado nisso, não no meu desempenho individual”.

Apenas Ricardo Quaresma foi uma exceção recentemente mas espero que, em breve, o desempenho individual dos jogadores em termos políticos sigam os exemplos destes dois futebolistas, mesmo que tenham que seguir as indicações do mister antes de analisarem uma proposta de lei que seja boa para eles e para o clube.

Quem sabe se um dia, também alguém do quinto classificado da Liga NOS crie uma campanha capaz de tirar um milhão de crianças da pobreza. Fico à espera, caro plantel do FC Famalicão.

Um primeiro sinal desta mudança em Portugal aconteceu quase imediatamente a seguir. Pela primeira vez a Liga dos Campeões vai ser jogada numa Final-8 e o local escolhido foi a cidade de Lisboa.

António Costa veio logo dizer o evento era um “prémio para os profissionais de saúde”. Parece estranho num país onde os profissionais de saúde arriscam a vida e são mal pagos. Provavelmente o primeiro-ministro esqueceu-se de lhes perguntar se era uma proposta boa para os profissionais de saúde e para o país, mas a verdade é que muitas vezes o essencial passa despercebido a todos nós.

Se Marcus Rashford é um jogador de um clube que apenas conseguiu qualificar-se para a Liga Europa e que este ano vai pelo mesmo caminho, conseguem imaginar a mais valia que será juntar na capital do nosso país os jogadores das oito melhores equipas da Europa?

Teremos jogadores muito mais importantes a ajudar para que decisões políticas racionais sejam tomadas ajudando o nosso país a ultrapassar a crise.

Já chamaram a Mário Centeno o Cristiano Ronaldo das Finanças, agora que ele saiu do governo vamos conseguir ter o próprio Cristiano Ronaldo em Portugal a sugerir um novo orçamento rectificativo (caso a Juventus vença o Lyon nos quartos-de-final)? Ou Neymar a contribuir para um plano de gestão dos recursos hídricos dada a sua capacidade de mergulhar dentro da área? Ou, como António Costa referiu, que os profissionais de saúde sejam premiados, nomeadamente os da área da nefrologia, com workshops providenciados por Lionel Messi sobre o funcionamento dos rins e sobre como estes podem ser partidos com um simples movimento do pé esquerdo?

Por isso, um prémio monetário para os profissionais de saúde só faz sentido se um jogador da equipa vencedora da Liga dos Campeões assim o sugerir. Talvez seja uma boa pergunta a fazer ao capitão que levante o troféu.

Até lá, eles que aproveitem este prémio que é de todos nós.

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