Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

A racionalidade nunca foi a minha característica mais forte mas, ou talvez por isso mesmo, sempre precisei de encontrar razões, ainda que apenas imaginadas, para que as coisas façam sentido. Isto vale para o nome de um qualquer café, para casos de escândalos políticos ou para o mais hediondo dos crimes.

Em qualquer dos casos trata-se de um exercício de empatia: tentar colocar-me na pele do outro e imaginar que circunstância, prosaica ou dramática, que amor ou desamor, que acaso ou conjugação de acontecimentos levou a que algo acontecesse de uma ou outra forma. Isto não significa, obviamente, pelo menos não sempre, validar a realidade dos factos, “apenas” percebê-la. Entender o mundo, mesmo não concordando com o que nele acontece, ajuda-me a viver melhor. A vocês não?

Sou bastante boa neste exercício ainda que, aposto, a maioria das vezes sem andar sequer perto da verdade. Mas a minha versão de porque-é-que-isto-aconteceu-assim basta-me. Pode não ser a real, mas é uma e, havendo uma, outras tornam-se plausíveis.

Não consigo, no entanto, encontrar qualquer circunstância, por mais terrível, que leve alguém, e não tem de ser necessariamente a mãe, a abandonar um recém-nascido despido num caixote do lixo.

Não há violência doméstica, violação, pobreza, miséria, infidelidade, toxicodependência, medo ou arma apontada à cabeça que me faça conceber o que aconteceu, esta semana, no nosso Portugal de cada vez menos brandos costumes.

Há algo de profundamente perturbador na falta de humanidade necessária a abandonar um recém-nascido – não num centro comercial quentinho, não embrulhado numa manta, não numa urgência de um hospital ou num banco de uma igreja mas – num caixote do lixo.

As vidas não se medem em quantidades, nem em idades, e este gesto é, de alguma forma, de uma violência pessoal maior do que a implicada no apertar de um botão ou na ordem dada para lançar um ataque que mata dez crianças, crime hediondo e também obviamente injustificável e sem racionalidade possível.

Sou pouco dada a seguir crimes de faca e alguidar mas este, confesso, seguirei. Como mãe, como mulher, como ser humano, preciso de perceber.

É também nessas qualidades que desejo que o pequeno bebé cumpra um ditado popular que julgo que pertence às comunidades ciganas norte-americanas, que desejam aos recém-nascidos e recém-casados «um mau começo», para que todo o mal esteja no início, quando há força para lutar e tempo para recuperar, e depois venha a bonança.

Este bebé veio do lixo, mas não foi do contentor onde, em boa hora, um sem-abrigo mas com-coração o encontrou – foi do lixo que temos cá dentro, no meio de nós. É preciso saber, entender e prevenir, para que nunca mais – nunca mais! – um bebé passe por isto.

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