Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Olá, meus amigos. Fiquem bem.Vivemos tempos assustadores mas isso não pode tirar-nos a capacidade de discernir, de acalentar as coisas boas que vivemos até aqui, esperar poder repeti-las em breve, mesmo que com outras nuances.

Há quem diga que nada voltará a ser como foi, mas eu reservo-me a espera para poder tecer uma opinião mais fundada sobre o assunto.

Hoje recordo uma efeméride, triste mas que deu à luz novas esperanças e novos desafios.

Cumprem-se hoje 61 anos sobre a última prisão de Álvaro Barreirinhas Cunhal, uma incontornável figura portuguesa do passado século, tenham-se as opções políticas que se tenham. A minha, eternamente comunista e orgulhosa por tal.

Ainda o ano de 49 ia nos seus inícios, quando, numa noite soturna e fria, o ferrolho da casa clandestina onde na altura Álvaro se abrigava, foi arrombado a pontapé, tendo os esbirros fascistas da Pide entrado aos gritos, num cenário de terror e selvajaria.

Passou-se isto em Casal de S. António, Luso, e daí dirigia o Secretário Geral o seu Partido, desde há quatro meses. Com ele se escondiam Sofia Ferreira, que tive o prazer de conhecer, assim como conheci Cunhal, e ainda Militão Ribeiro, um destacado dirigente, que escapara a uma incursão semelhante, na casa do Porto, onde haviam aprisionado a companheira.

Do que se passou naquela noite e da barbárie contou, bem mais tarde, com todo o pormenor e toda a angústia a camarada Sofia, na altura com apenas 23 anos. Álvaro contava 36 e Militão 64.

Anteriormente Cunhal havido vivido em duas casas na povoação de Alhadas do concelho da Figueira da Foz.

Uma dessas casas pertencia e ainda pertence a família nossa e é motivo de grande orgulho que ali tenha estado tão eminente e brava figura da nossa história, um combatente sem tréguas contra o fascismo e suas “diatribes”, para suave ser!

Em Casal de Sto António, apenas Sofia saía para fazer compras. Dizia viver com o marido mas que ele estava a fazer um curso e não tinha tempo para distrações! Mais tarde diria a doce Sofia: “O Álvaro tinha muito trabalho e estudo e eu ajudava-o a escrever à máquina e a arrumar os arquivos”.

Apesar desse intenso trabalho, ela sublinha: “…o camarada fazia questão de ajudar, arrumava sempre o seu quarto e até cozinhava.”

Não eram Álvaro e Sofia mas Duarte e Elvira, dois dos seus disfarces da clandestinidade.

Sempre Cunhal se preocupou com a causa feminina, defendendo o seu papel na sociedade e a sua autonomia de facto. Em Julho de 1940, aquando da segunda prisão, é levado e escoltado a partir da Penitenciária de Lisboa para defender, perante o júri, a sua tese de licenciatura em Direito: “O aborto; causas e soluções”.

Num contexto político tão retrógrado e reaccionário, e sendo ele quem era, era preciso atrevimento para escolher tal tema, mas a defesa foi de tal modo brilhante que o dito júri não se atreveu a atribuir-lhe menos de 16 valores! Fazia parte dos jurados Marcelo Caetano! Ironias do destino!

Naquela noite escura de 1949, Cunhal partiu para o presídio. Ao todo cumpriu 15 anos de emprisionamento, sendo oito deles passados em completo isolamento, sem nunca perder a noção do tempo, apesar da circunstância, das torturas, das sevícias. Nunca lhe arrancaram uma palavra que fosse, acerca do funcionamento do Partido ou acerca de seus militantes e funcionários!

Como podemos nós dizer, após meia dúzia de dias em casa, podendo abrir as janelas, podendo conversar de varanda para varanda, com meios tecnológicos ao nosso dispor e, e, e, que já não sabemos a quantas andamos! Ponhamos os olhos nestes exemplos absolutamente extraordinários!

Haviam-no apanhado, pela primeira vez em 1937, depois em 40 e finalmente naquela fatídica noite de 25 de Março de 49. Seria a última vez, acabando esta ignomínia em 3 de Janeiro de 1960, na celebrada Fuga de Peniche. Álvaro evadiu-se, em circunstâncias dificílimas com mais nove bravos camaradas, sendo aguardado cá fora pelo actor Rogério Paulo.

Os da minha geração lembrar-se-ão dele, da sua figura imponente e da sua voz grave e quente, uma belíssima voz de baixo. Rogério Paulo abriu o capot do seu carro, olhou cuidadosamente lá para dentro, como se procurasse uma avaria e voltou-o a fechá-lo. Estava dado o sinal de que poderiam os camaradas correr para os automóveis, estava livre o “cenário”!

Cunhal voltaria ao seu País poucos dias após o 25 de Abril de 1974, tendo participado efusivamente na Manifestação do 1º de Maio, o primeiro vivido em liberdade.

Até para a semana. Cuidem-se. Aquele abraço que só os portugueses sabem como é, firme franco. SQ

 

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