Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Tenho tentado olhar para os lados positivos de toda esta crise do Covid-19, mas hoje vou abrir uma exceção. Esta crise deu origem ao slogan “Vai Tudo Correr Bem” acompanhado por um arco-íris desenhado por crianças.

E faz sentido, a maioria das pessoas vai ficar bem, e o pânico não ajuda a ninguém, muito menos crianças. Mas para muitos outros, as coisas não vão ficar bem.

Todos sabemos mas se calhar não vale a pena estar demasiado tempo a pensar nisso, mas há algo em que vale a pena pensar. Já li várias vezes que este vírus não escolhe classes sociais e que até o Príncipe Carlos, o Boris Johnson e vários ministros e políticos pelo mundo fora já foram infetados.

Sim, já foram infetados, mas após o início da quarentena, os que têm maior risco de contágio, pelo menos no Reino Unido, são os condutores de autocarro, os trabalhadores dos supermercados e os profissionais de saúde.O vírus ataca muito mais as pessoas com rendimentos mais baixo.

Muitos queixam-se de estar a trabalhar de casa ou em quarentena e concordo, estar fechado em casa a trabalhar muitas vezes pode não ser um paraíso, mas acreditem que deve ser muito mais confortável do que caminhar pelos cuidados intensivos de um Hospital com doentes com Covid-19 a tossir em todas as direções. Em casa, apesar de tudo, há poucos riscos de falecimento, mas quem anda em locais públicos, a salvar vidas e a ganhar ordenados miseráveis vê a vida toda a passar pelos seus olhos várias vezes ao dia quando ouve o espirro de um doente…

É incrível como enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica ou auxiliares de ação médica arriscam a vida (e morrem) e recebem em troca ordenados a roçar o salário mínimo. Por exemplo, o Luís, que salvou a vida a Boris Johnson segundo o próprio, é um Senior Staff Nurse, o que segundo a tabela do NHS (serviço de saúde britânico) corresponde à Banda 6, com um ordenado entre as 36 mil e as 43 mil libras anuais.

Parece muito? Para o que se ganha em Portugal, £2.400 mensais (12 meses) é de facto um bom ordenado Mas estamos a falar de Londres, onde rendas de apartamentos T1 ficam a £1.200 e onde o passe do metro custa £200 pelo que já só sobram £1.000. Com contas e compras, o ordenado é apenas o suficiente para se viver com dignidade mas sem grandes poupanças. Melhor que em Portugal, de onde saíram contentores enfermeiros para o estrangeiro nos tempos piores da austeridade.

E os médicos? Todos sabemos que os médicos ganham bem. Não digo o contrário. Mas mesmo assim, preferia ganhar um ordenado básico se me dessem a certeza que não faleceria a executá-lo do que ser médico a respirar perdigotos recheados de doenças contagiosas.

Até que ponto tudo isto é justo? A resposta é óbvia. Não há ponto nenhum de justiça, nem no Reino Unido, nem em Portugal nem em provavelmente nenhum país europeu. Começou a moda de bater palmas (e aqui no Reino Unido temos feito isso todas as quintas-feiras) e acho muito bem, merecem-nas.

Mas as palmas não pagam contas e por muitas palmas que Cristiano Ronaldo goste de receber, por certo que nunca trocaria o seu ordenado de 31 milhões de euros por ano por um aplauso semanal dos adeptos da Juventus.

Podia agora entrar na demagogia fácil de culpar os bancos que foram salvos com o erário público ou os ordenados dos deputados, mas não vou seguir por aí. Mesmo se nenhum deputado recebesse um ordenado, pouco sobraria para distribuir por profissionais de saúde (que não muitos mais que 230, caso não tenham reparado).

Quanto aos perigos de um banco desaparecer, por muita antipatia que eu sinta por banqueiros, são de tal forma complexos que não domino a matéria o suficiente para dizer que as coisas podiam ser diferentes.

Mas também sei que se todos nós que recebemos ordenados déssemos algo por mês para o serviço nacional de saúde, isso poderia mudar as vidas destes heróis para melhor. Pode fazer a diferença a cada um que chega a casa depois de um turno de 12 horas, arrasado pela morte de doentes e ainda tem que contar moedas para encomendar comida do restaurante da esquina porque já estão todos os supermercados fechados.

Não sei qual a percentagem que poderíamos descontar, mas dois, três ou cinco por cento do nosso salário faria uma grande diferença no financiamento de um sistema de saúde. Eu pagaria de bom grado uma taxa do género. E vocês?

E se uma taxa dessas não chegar num curto prazo, porque não ajudar financeiramente os que conhecemos? Assumirmos nós, os privilegiados que não correm riscos, as despesas das casas que partilhamos com esses heróis.

Encomendarmos comida para que os nossos amigos que chegam a casa depois de um dia de risco e desilusões terem uma surpresa positiva que lhes alegre o dia? Por que não? Eles merecem muito mais. É a altura de #darumdescontoaosherois

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