Rui Martins, activista e dirigente associativo, escreve semanalmente aos domingos no LUX24.

Praticamente desde o primeiro momento em que o Chega ascendeu ao Parlamento e passou a criar “eventos mediáticos” numa base quase diária que se observam constantes contradições programáticas. Estas contradições têm três ordens de explicações:

1. Por um lado a absoluta fulanização do partido em torno do seu líder através do apagamento total de todas as suas outras figuras dirigentes concentra num único indivíduo a função de representação: esta individualização do Chega em André Ventura faz com que as oscilações opinativas de um único indivíduo possam conduzir imediatamente à oscilação opinativa e propositiva de todo o partido.

2. Por outro lado estas contradições são também o produto de uma falta de estratégia ou visão de longo prazo e de uma acção política baseada no curto prazo, na volátil “opinião pública” percepcionada pelos Media e pela ânsia de perseguir a cada momento não a causa que seja mais compatível com uma ideologia ou o programa político mas que colha mais apoios populares.

O Chega não tem, com efeito, nem uma visão profunda da realidade, nem um quadro programático sólido (de Esquerda ou de Direita) mas apenas uma orientação “estratégica” Populista que tende a aproximar-se das causas mais comuns à Extrema Direita sem as verdadeiramente assumir a não ser de forma estritamente oportunista e conjuntural.

3. O Chega é assim o partido da “pouca memória” porque vive no “tempo curto” dos Media e das causas fracturantes do tempo real: Falta-lhe uma estratégia de fundo e mesmo que a tivesse estaria sempre disponível para a sacrificar no altar da causa mais popular no momento. E é precisamente aqui que se encontra a sua maior potencialidade de crescimento sustentável porque haverá sempre – a cada momento – uma “causa do momento” em que a revolta, a indignação e a frustração do eleitorado se poderá facilmente cristalizar na expressão de um sentido de voto nas próximas eleições.

Estes três vectores que geram contradições no Chega são, paradoxalmente, factores para o seu crescimento sustentado e estável e não para a sua erosão e eventual desaparecimento a curto prazo: Por um lado a associação do seu rosto – principal e único – a um popular clube de futebol garante-lhe o reconhecimento público e a admiração e seguimento por parte de muitos adeptos futebolísticos que têm dificuldade em separar a Política do Futebol no mesmo tipo de registo que outrora caracterizava a dificuldade de alguns em separarem o Estado da Igreja.

Por outro lado, este crescimento sustentável (assim aparenta ser) aproximá-lo-á inevitavelmente dos círculos do poder e quando um dia a Direita regressar ao poder (PSD isolado ou coligado com CDS/PP ou com IL) será de esperar que o Chega negoceie algum tipo de apoio parlamentar ou que integre um governo da República.

Esta integração ou apoio vai credibilizar o partido aos olhos do eleitorado mais moderado e acabará garantindo mais votos e a consolidação dos já conquistados.

Este é o processo que em Espanha aproximou o Vox do poder e que em Itália colocou a Liga Norte no governo de Roma.

A prazo e a menos que algo de muito inesperado ocorra o Chega será uma alternativa incontornável de governo se um dia a direita quiser voltar ao poder.

E a questão que todos os democratas devem colocar é: O que fazer a este propósito?

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