Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve quinzenalmente às quartas no LUX24.

Na passada semana registaram-se duas ocorrências de nível 0 (Escala Internacional de Acidentes Nucleares) na Central Nuclear de Almaraz, em Espanha.

As ocorrências de nível 0 não envolvem diretamente questões de segurança, no entanto estão por conhecer a origem dos problemas que levaram à paragem automática dos reatores Almaraz 1 e Almaraz 2.

O reator de Almaraz 1 registou a sua segunda ocorrência de nível 0 em 2020. Os acidentes de nível 1 são mais graves, envolvendo a segurança de pessoas (por ex. exposição à radiação a uma taxa superior à dose máxima anual) ou o extravio de materiais emissores de radiação (ver escala abaixo).

O reator Almaraz 1 foi ligado à rede elétrica em 1981 e Almaraz 2 foi ligado em 1983, tendo sido recentemente prolongados os tempos de vida destes dois reatores até 2027 e 2028, respetivamente. A duração do tempo de operação destes reatores estender-se-á até aos 45 anos, quando os projetos de engenharia originais tinham sido concebidos para um tempo de operação de cerca de 40 anos.

Paralelamente, esta semana, a Finlândia, a Suécia e a Noruega mediram uma taxa de radioatividade acima do normal, tendo registado a presença no ar de isótopos de produzidos pela atividade humana na indústria nuclear como o césio-137, o césio-134 ou o ruténio-103. Suspeita-se que os níveis de radioatividade possam ter origem numa central nuclear russa.

Na Rússia e na restante Europa existem dezenas de centrais cuja idade atingiu ou ultrapassou os 40 anos. Só na UE e na Suíça operam 30 centrais nucleares que ultrapassaram ou atingiram os 40 anos de tempo de vida.

O mais velho reator nuclear da Europa em operação é o reator Beznau 1 na Suíça que foi ligado à rede elétrica a 17 de julho de 1969, há quase 51 anos. A idade média das centrais nucleares europeias é de cerca de 35 anos fornecendo cerca de 21% da energia elétrica da EU.

Este panorama energético coloca o nosso futuro energético em xeque, entre riscos crescentes de acidentes cada vez mais graves e, se não se implementarem alternativas aos reatores nucleares, poderemos entrar em penúria energética se não alterarmos os nossos modelos de desenvolvimento.

Em todo o mundo há 56 reatores em construção e 439 em operação. A idade média das centrais nos EUA ronda os 40 anos. Estamos a deixar proliferar na Europa e no mundo dezenas de potenciais focos de riscos de acidentes cuja gravidade pode atravessar fronteiras e mares.

É um problema que diz respeito a todos e urge resolver em contextos internacionais, porque a radioatividade não vê fronteiras nem possui passaporte. É um grande desafio para a UE que tem de ser atacado já. Não nos podemos dar ao luxo de somar a uma crise pandémica um acidente nuclear grave e transfronteiriço.

Se há lição a tirar da Covid-19 é que só temos a ganhar em precaver com a devida antecipação eventuais desastres que poderão afetar a segurança e a saúde pública.

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