Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

Só muito recentemente tive a oportunidade de ler o mais recente livro de Michel Houellebecq, Serotonina, e de ver o filme mais falado do ano, Joker. E o que têm em comum o livro de um dos mais controversos escritores franceses e o livro que resgata do cenário das aventuras de Batman para as luzes da ribalta uma personagem da DC Comics?

A questão, ou as questões, da relação entre o isolamento e a doença mental, seja ela uma depressão ou as sequelas de um dano neurológico. Em ambos os casos encontramos personagens que sofrem, um com dinheiro, outro sem; um com formação académica e o que parece ser até um percurso bastante digno, outro com muito do que a sociedade despreza: baixa formação, empregos precários, problemas de saúde causadores de embaraços. Ambos, porém, sofrem com o isolamento que provocam/encontram vida fora.

Em Michel Houellebecq, parece ser uma sucessão quase inocente e anódina de desgostos amorosos, aliada a um vazio familiar e social e a uma consciência da vacuidade de um trabalho realizado de forma séria, o gatilho para uma depressão perigosa, para a personagem e, até, potencialmente, para os que a rodeiam.

No filme realizado por Todd Phillips é a clássica infância dominada pela negligência e já então pela doença mental, no caso, da mãe, a semente de uma vida de ostracismo, bullying e, bem, para sintetizar: desamor. O desamor é o que une as duas histórias. O desamor em traços largos, a falta de empatia, o alheamento social como gatilho para o isolamento de seres humanos que, depois, o devolvem ao mundo, e a si mesmos, sob a forma de violência, concretizada ou não.

Não é por acaso que vivemos em comunidades. Precisamos uns dos outros, é uma questão de sobrevivência e não só de sobrevivência material ou de segurança física – é uma questão de codependência emocional, precisamos de nos ver nos e pelos olhos dos outros, um outro que seja, de sentir que importamos, que valemos algo e que, por isso, devemos um certo comportamento ao mundo.

Se a maldade existe no ser humano, talvez ela nasça aí, onde falhamos todos, nem que seja pela ausência de um sorriso, de um «como estás?» genuíno, de algo que procure dar a quem não tem o que todos procuramos: uma ligação.

 

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