Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados

Esta semana o #EstudoEmCasa entrou de férias. É pena, porque servia para quem tinha faltado às aulas de CTV por estar atrás do pavilhão rever a matéria dada e deixar de dizer parvoíces acerca de pandemias.

Eu próprio dei por mim a divagar pelas aulas de História curioso acerca do que tinha mudado nos programas da disciplina dos últimos 25 anos.

Surpreendeu-me, não a diferença, mas sim a similaridade. Surpreendeu-me a visão subjectiva e pouco científica que nos anos 80 e 90 ainda poderia estar relacionada com o Estado Novo mas que em 2020 já não deveria estar.

Ensinar acerca do “Descobrimento da Costa Ocidental de África” quando por lá existia ocupação humana anterior à da Península Ibérica é, para mim, uma visão colonialista. Poderiam dizer que era novo para os Europeus ou para os Portugueses mas não faz qualquer sentido.

Em primeiro lugar porque até os Romanos fizeram expedições pela África subsariana e, em segundo lugar, não é por eu ter descoberto que existia uma vaca no parque junto a minha casa que lhe vou enfiar um padrão no meio dos cornos.

Portugal de facto, descobriu ilhas desabitadas como a Madeira, Porto Santo, os Açores (embora existem referências a estas ilhas anteriores à sua descoberta), Cabo Verde, São Tomé, Príncipe, Tristão da Cunha, entre outras. Mas, como eram desabitadas, nunca foram os objetos principais da sua atividade marítima.

Os navegadores Portugueses não andaram pelos oceanos em passeio ou “para trazer novos mundos ao mundo” como se estivessem a preparar-se para as competições de vela nos Jogos Olímpicos.

Os navegadores andaram pelo mundo para enriquecerem e eram apoiados pelos reis para estes enriquecerem igualmente. Mesmo hoje em dia todos os países tentam alcançar a prosperidade e, na maioria dos casos, sem recorrer à expansão territorial. Exceções serão a Rússia e Israel.

Esta visão romântica da expansão territorial Portuguesa já está um pouco esbatida nestas aulas de História na televisão, pelo que há que dar o mérito nesse aspecto. O pior acontece quando se diz que na Costa Africana os Portugueses negociavam malagueta, marfim e escravos, como se fosse tudo mercadoria.

Como se a Serra Leoa fosse uma mercearia onde se ia buscar uma malagueta para temperar o frango, um dente de Elefante para coçar as costas e um escravo para fazer trabalho não remunerado.

Um estudante que ouça isto ainda pode confundir a malagueta com os escravos e dizer que os navegadores usavam a escravidão para tornar a sua vida mais picante. Terrível.

Na altura as questões éticas eram diferentes, mas há sempre uma tentação de passar por cima de alguns assuntos extremamente negativos para salientar questões eventualmente positivas (sempre no seu ponto de vista).

Portugal enriqueceu com a sua atividade no Oceano Índico (que noutros pontos de vista é chamado de pirataria) e com um triângulo entre o Brasil, Portugal e África onde escravos e matérias primas circulavam pelo Atlântico fazendo enriquecer apenas um dos vértices desse triângulo.

Traficantes de escravos portugueses enviaram milhões de pessoas contra a sua vontade de um continente para outro em condições que mataram muitos milhares e parece que há algum pudor em dizer isso.

Não estou com isto a dizer que sejamos os únicos a olhar assim para a nossa História. Quando estudei a História do Reino Unido, o ponto de vista é semelhante e aqueles para que em Portugal eram piratas, como Francis Drake, nos livros de História britânicos são apenas navegadores que dão a volta ao mundo.

As viagens de Vasco da Gama, Bartolomeu Dias ou Pedro Álvares Cabral são apenas uma ínfima parte da nossa História. Seguiram-se milhares e milhares de viagens, milhares e milhares de negócios que passam ao lado da História que nos é ensinada.

Cabe a quem faz os programas mudar e a quem já acabou os estudos procurar os outros pontos de vista.

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