Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Se fosse viva, a grande Amália completaria hoje a bonita idade de cem anos, facto que não é tão raro assim nos dias que correm.

A população está cada vez mais envelhecida na maioria dos países, e os avanços da medicina ou vidas completamente ascéticas e saudáveis, levam a que muitos idosos atinjam essa notável marca.

É curioso que a maioria das pessoas que festejam o seu centésimo aniversário, o façam com assinalável qualidade de vida, tendo em conta que já viveram um século! Cada vez mais topamos com notícias de mais alguém que fez cem anos e teve direito a uma merecida festa, não sendo raro que os aniversariantes ainda lêem ou costuram ou fazem a sua pequenina horta ou dão conselhos sábios e cantam cantigas de cor, num estado de apreciável lucidez.

Pois Amália, se viva fosse, completaria hoje o seu 100º aniversário, se bem que o seu Bilhete de Identidade marcasse como data de nascimento 23 de Julho.

Amália sempre insistiu ser a data vinte e três dias antes e isto de as crianças não serem registadas na data certa do seu nascimento era coisa muito frequente na época.

Por que razão? Registar fora do dia de nascimento dava “direito” a multa e a população fugia a este castigo imerecido, “aldrabando” as datas.

As posses eram muito limitadas, também na família humilde do bebé Amália e do Fundão a Castelo Branco uma distância assinalável. Logo a família se muda para a capital, procurando fugir à pobreza e a bebé é registada como tendo nascido em Lisboa, na típica freguesia da Pena.

A menina é enviada para a escola por sua avó, quando já tem nove anos. Mas é forçada a abandonar três anos depois e é absolutamente espantoso como Amália se autocultivou, chegando a falar com razoável fluência cinco línguas estrangeiras: castelhano, galego (a Galiza é uma nação!), francês, italiano e inglês.

Descobertos os seus dotes vocais quando ainda jovenzinha, vendendo fruta no Cais da Rocha, inicia uma carreira de fadista aos vinte anos. Tendo pretendido concorrer a Rainha do Fado no Concurso da Primavera, descoberta de novos talentos, tal não foi posível porque ninguém queria competir com ela!

Mas o título seria seu até ao fim da sua vida, ocorrido a 6 de Outubro de 1999, em plena campanha eleitoral para as Legislativas desse ano. Quando soube da infausta notícia eu encontrava-me numa distribuição de propaganda na feira de Montemor-o-Velho. O país ficou nessa hora mais pobre.

O antigo regime serviu-se dela como bandeira e Amália passou pela fama de ser sua colaboradora. Não! Muitos dos seus fados foram censurados pelo famigerado “lápis azul” do SNI, Secretariado Nacional de Informação, a abominável censura do fascismo.

Com ela privaram notáveis mestres da língua portuguesa, entre eles os grandes David Mourão Ferreira e Ary dos Santos. Tertúlias noite adentro espiadas pela polícia política e por onde passavam antifascistas, gente ligada à resistência contra o Estado Novo, que de novo ostentava apenas o nome, pois era bafiento e cruel, antimoderno, retrógrado e insano, tresandando a Hitler e Mussolini!

(Basta pensarmos como era encarada a mulher, como se prendiam pessoas brutalmente pela calada da noite, como se mantinham pessoas encarceradas, apodrecendo em cárceres insalubres por longuíssimo tempo, sem julgamento ou com julgamentos fantoches! A lista de ignominias não acabaria tão cedo!)

Foram precisos alguns anos sobre a morte da inolvidável cantora/actriz para ser público que Amália protegeu financeiramente famílias de comunistas presos durante esse período que tanto fez sofrer o nosso Povo e que contribuía para as actividades do PCP na clandestinidade. Também ela cantou “Grândola Vila Morena” quando nos libertámos das algemas do fascismo.

Amália, a inimitável Amália, deixou-nos há mais de vinte anos, num momento em que a voz já a traía. Não a esqueceremos. Como fadista, como inovadora, tendo introduzido o fado-canção, género que levou tantos de nós a “descobrir” a alma do portuguesíssimo Fado.

Levou o nome de Portugal Mundo afora, sempre mantendo a sua sobriedade e simplicidade que a levavam a agradecer comovidamente cada manifestação de apreço. Sempre simples e humilde, embora fosse chamada de A Diva.

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