
Encontrei no mural de uma amiga, no Facebook, uma frase daquelas que povoam esta rede social: E se esta manhã acordasses apenas com as coisas pelas quais agradeceste ontem?”. Eu respirei de alívio depois de uns segundos de introspecção. É uma técnica de sobrevivência muito útil e que fui dominando com os anos: se não queres que os acontecimentos maus te derrubem, opta por te focares nos bons.
Por isso raro será o dia em que não olho para os meus filhos e penso a sorte que tenho por serem saudáveis, lindos, doces e equilibrados. Muitas vezes quando estão a dormir, é certo, mas também quando a pequenita dança ou apanho o mais velho a – pasme-se – ler um dos livros da minha adolescência. Sou grata, tenho de ser.
E a sorte que tenho por ter eu própria uma saúde de ferro – e sem fazer grande coisa para isso? Sou grata, tenho de ser.
Depois de ter vivido fora de Portugal e da Europa por um ano também passei a apreciar, e a ser grata por, coisas que até então desvalorizava: supermercados com comida para todos os gostos e farmácias e transportes à porta de casa; água potável a sair das torneiras e uma casa como a do porquinho mais diligente da história infantil, que aguenta chuvadas e até Leslies; família e amigos perto.
Ser grata por estas comodidades e alegrias faz-me ser grata pela experiência que foi viver fora, aprender como é possível, e até fácil, ser feliz com menos de tudo o que referi mas com muito de descoberta, amizade, companheirismo, calor, físico e humano.
Se não penso mais vezes nesse motivo que tenho para estar grata que foi Timor Leste é porque, saudosista como nasci, me dói, mesmo, recordar. Estar longe também me ajudou a ser grata por todas as pessoas especiais por quem chorei de saudades. Já agora, sou grata também pelas fotografias e por ter nascido na era das telecomunicações.
Ser grata é uma defesa e uma arma, daquelas que não faz mal a ninguém. É o karaté da alma e como tal requer disciplina, prática, auto-conhecimento. Mas vale cada segundo de investimento.
A gratidão é uma ferramenta que transforma desilusões em aprendizagens: sou grata por ter conhecido até quem me magoou porque saí desse relacionamento mais forte, a conhecer-me melhor ou a ser mais cuidadosa nos seguintes. Ou nos a seguir a esses, que às vezes somos lentos a aprender… mas, se sobrevivemos, temos por que ser gratos, certo? E os outros? Os que nos querem/fazem bem? Da minha melhor amiga à auxiliar que recebe a minha filha com um sorriso na creche e a mima com penteados elaborados, sou grata, tenho de ser.
Sou grata pela Democracia e pela Liberdade, com todas as suas imperfeições. Basta levantar os olhos dos nossos umbigos para perceber que nenhuma destas conquistas é definitiva – ser gratos por elas é uma forma de estarmos atentos e previdentes. Sou grata, e sendo mulher, e mãe, tenho mesmo razões para o ser.
Sou grata pelas experiências de trabalho que tive, mesmo as menos deslumbrantes, porque me mostraram que tenho a capacidade de arregaçar as mangas quando é preciso, seja para escrever para um jornal, seja para lavar copos. É uma bênção saber que temos essa capacidade, de nos adaptar, a um novo estilo de vida, a um novo país, a um novo trabalho. É importante sobretudo para bater com a porta quando a situação atravessa uma das nossas linhas vermelhas. Também por isto sou grata, tenho de ser.
Vivemos tempos estranhos, os desafios que temos pela frente são, limpos de eufemismos, dificuldades, problemas, tensões. Cultivar a gratidão torna-nos mais resistentes, mais positivos e mais felizes, de uma forma que não depende do que nos é exterior – está cá dentro.
Sim, se acordasse amanhã só com as coisas pelas quais agradeci hoje… ficaria bem.
E vocês?
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