Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Todos nós sabemos como é difícil a vida de emigrante. Mesmo para exercer os nossos direitos democráticos estamos limitados. Por exemplo, apesar de já viver no Reino Unido há quatro anos não tive direito a votar num referendo que podia mudar a minha vida.

Mas é do nosso país de nascimento que quero falar. Mal me mudei para cá mudei a minha morada fiscal, não fosse o Estado Português cobrar-me impostos por engano, mas o meu registo eleitoral ficou suspenso porque teria que me registar no consulado da minha área de residência. Isso significa que teria que me deslocar a Londres para me registar.

E como o Consulado de Londres só está aberto às horas em que uma pessoa normal trabalha e está fechado aos fins-de-semana e feriados, lá tive eu que tirar um dia de férias para ir a Londres e inscrever-me para exercer o meu dever de cidadão.

Pena foi ter ido lá no dia 10 de Junho e o consulado fechar tanto nos feriados britânicos como portugueses.

Se souberem de vagas de emprego num consulado português por favor avisem porque parece que o trabalho não é mau de todo. Aliás, só espero que aquela gente seja compensada com mais um dia de férias nos feriados que ocorrem nos dois países ao mesmo tempo.

É escusado dizer que nunca mais lá voltei depois de ter batido com o nariz na porta e perdido um dia de férias. Felizmente o ano passado saiu uma nova lei em que os emigrantes entram imediatamente no registo eleitoral da área de residência e podem todos votar por correspondência.

Após 45 anos de democracia finalmente conseguiram ultrapassar este problema, os meus parabéns a Portugal e o meu obrigado a quem conseguiu maneira de cruzar o registo eleitoral com as moradas das pessoas no estrangeiro.

Se reside fora do país por certo já recebeu uma cartinha com o boletim de voto e dois envelopes. Um para enfiar o boletim de voto lá dentro e outro para enfiar uma fotocópia do cartão do cidadão e o envelope com o boletim de voto.

Mais uma prova que a Rússia se anda a imiscuir nas eleições dos países ocidentais. Ter a nossa identificação associada ao voto “secreto” e uma matrioska eleitoral com envelopes uns dentro dos outros e só pode ter sido ideia do antigo KGB.

Mas os senhores russos podiam ter sido mais inteligentes. É que não sei se repararam, mas as matrioskas têm diferentes tamanhos para poderem caber umas dentro das outras, por isso esta ideia de terem dois envelopes com o mesmo tamanho e tentar meter um dentro do outro não foi lá grande coisa. Mas com umas dobras e um bocado de fita-cola tudo se consegue.

Outra coisa que não correu bem foi terem colocado o remetente e o destinatário na parte da frente do envelope. É que no Reino Unido o remetente vai atrás e os correios ficam confusos, por isso houve muita gente a receber as matrioskas, perdão, os envelopes de volta.

Mas estas dificuldades são fáceis de ultrapassar, mas houve uma que se tornou um desafio para lá das capacidades humanas. É que a data de envio das matrioskas tem que ser até ao dia das eleições, ou seja, a não ser que se viva num país muçulmano em que os fins-de-semana são à sexta e sábado, os correios não estão abertos ao domingo. Por isso, o voto terá que ser obrigatoriamente antecipado, o que implica votar antes do dia de reflexão.

Já viram isto? Todos os emigrantes a votar sem terem direito ao importante dia de reflexão. Eu bem tentei tirar um dia para refletir antes de votar, mas é impossível, tem que ser aquele sábado antes das eleições em que todos os jornais e televisões falam de assuntos aleatórios como se a campanha eleitoral não tivesse acabado poucas horas antes e as eleições não ocorressem no dia seguinte.

A única forma de simular um dia de reflexão era votar no Natal ou no Ano Novo, quando as notícias são todas sobre bebés a nascer ou bolo rei (Cavaco Silva já não é candidato, por isso não há problema).

Mas não! Perdermos esse dia e agora não sabemos como votar convenientemente. Eu próprio já votei, mas nem conseguia colocar a cruzinha no quadrado porque tinha medo que esse ato fosse irrefletido. E se calhar até foi. Aliás, foi tão irrefletido que já nem me lembro se votei no PNR ou no PCTP-MRPP.

Espero que no futuro este erro seja corrigido, porque como poderia ter dito o Graciano Saga numa canção dedicada a todos nós emigrantes: Mais vale um dia de reflexão na vida do que a vida num dia de reflexão.

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