A série de programas “Herdeiros de Saramago”, que começou a ser transmitida na passada semana na RTP1, é a prova de que bons programas sobre literatura podem ser transmitidos em horário nobre com audiências muito honrosas.

Apesar de um título que considero forçadamente apelativo – felizmente a variedade da escrita dos autores nacionais vai muito para lá da aura literária de Saramago – cada episódio desta série tem como fio condutor o percurso de vida do escritor retratado.

Os dois primeiros episódios transmitidos a 18 de novembro foram dedicados a Paulo José Miranda e José Luís Peixoto. Nesses episódios constatou-se que o formato é mais para o ligeiro do que imersivo na escrita, porém é realizado com criatividade, permitindo mesmo àqueles cujos hábitos de leitura são mínimos entrar de forma natural nas obras literárias através da abordagem humana dispensada a cada escritor.

Através de recitos de episódios de vida paralelos à escrita de cada autor, o espetador vai-se infiltrando nas respetivas obras, sem se dar conta, entrando pela porta do lado humano.

As nossas televisões pejadas de entretenimento barato passaram a ter um programa muito honroso dedicado à literatura no canal principal do serviço público em horário nobre (apesar de ser lá mais para o fim do horário nobre).

Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve quinzenalmente às terças no LUX24.

Outros países europeus já tinham demonstrado que é possível ter programas de grande audiência em horário nobre no serviço público de televisão. Quem conhece a televisão francesa identifica certamente os programas “Tout le monde en parle”, “On n’est pas couché” ou o mais antigo “Bouillon de culture”.

Em tempos de Covid, em que temos sido assediados pela desinformação e o populismo, é de saudar esta iniciativa da RTP, que contribui para elevar a reflexão e a discussão no espaço público.

Faltam agora iniciativas semelhantes, mas dedicadas à ciência. Se o conseguirmos fazer estaremos a prestar um belo serviço ao país.

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