Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

Há muitos portugueses que não se reveem em nenhum dos partidos que se apresenta a estas eleições. Ou que até se reveem num partido, ideologicamente, mas não nos seus atuais protagonistas.

Há os que consideram que o sistema está ultrapassado, permite demasiados abusos, do nepotismo ao tráfico de influências, entre outros. Há os que se sentem abandonados pelas políticas públicas, os que consideram que os deputados são privilegiados inúteis, os que já não acreditam em nada nem em ninguém. É legítimo – o que sentimos é sempre legítimo, mesmo que não corresponda à verdade absoluta, até porque esta é, julgo, inatingível.

Mas, salvo melhor opinião, ainda não inventámos melhor sistema do que este – e não há sequer nenhum movimento de fôlego em Portugal que o defenda atualmente. (Felizmente, acrescento eu). E, neste modelo que é o nosso, abstenções, votos brancos e nulos não alteram resultados finais. Não há cadeiras vazias, não há menos deputados no Parlamento. Só há menos verdade na representatividade democrática dos eleitos. Só? Não, também há riscos.

Há o perigo evidente do empobrecimento da democracia, da força teórica do sistema e do surgimento de fissuras que permitam o regresso de outras formas de governo ou a estreia de sistemas de consequências imprevisíveis. Sistemas menos democráticos, mais populistas, insidiosos, perigosos. E não estou a tecer considerações sobre a lateralidade original destas investidas, se da Esquerda, se da Direita, se de novas e ainda difíceis de rotular filosofias políticas.

Já há quem clame por salvadores e eu pelo-me de medo – mais pelos meus filhos (e pelos vossos) do que por mim e por nós, que já temos direito de voto-, de salvadores. A História não guardou deles bom registo. Talvez o tempo presente seja escasso em grandes personalidades políticas, mesmo colocando de lado Trumps, Bolsonaros e afins e atendendo apenas aos menos maus ou excêntricos.

Mas, parafraseando Mário Soares, talvez, como nos vinhos, haja ciclos de boas e más colheitas no que respeita a políticos, talvez até, agora de minha lavra, no que diz respeito à Humanidade em geral. Mas, como muitos outros antes do nosso tempo frisaram, às vezes viver já é um ato revolucionário. Sobreviver. Manter viva não apenas a esperança mas a possibilidade de mudança, de melhoria.

Mais do que eleger este ou aquele, importa preservar a democracia, o sistema, para que ainda exista quando a colheita melhorar.

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